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Pretendemos apresentar aqui
uma seleção de "causos" de Itanhaém, de toda a Costa da
Mata Atlântica (Litoral Sul), assim como de toda a
região do Litoral Paulista e áreas rurais. Caso você saiba
algum "causo"
de relevante interesse e quiser colaborar com o site,
envie-o através do e-mail
editor@itanhaemvirtual.com.br acompanhado de seu
nome, que colocaremos no ar! Vamos começar com alguns...
A História do Bom Jesus de Iguape
A história de Bom Jesus de Iguape teve
seu rompante nos tempos da Capitania de Itanhaém, que
abrangia desde Cabo Frio (RJ) até Paranaguá (PR). No ano
de 1647 a imagem foi destinada ao Brasil, procedente de
Portugal, mas ao aproximarem-se da costa pernambucana a
nau que transportava a imagem foi atacada por piratas
Com receio de que os piratas profanassem a imagem, o
comandante colocou-a num caixote, juntou algumas botijas
de azeite e lançou ao mar. Assim a caixa foi levada pela
correnteza marítima, em direção ao sul da costa
brasileira.
No mesmo ano, na Praia do Una, dois
índios enviados à Vila de Nossa Senhora da Conceição de
Itanhaém, a pedido de Francisco de Mesquita, morador da
Praia da Juréia, avistaram a caixa no mar e resgataram.
Perceberam que se tratava de uma imagem dentro de um
caixote juntamente com algumas vasilhas de azeite.
Acreditando que havia alguma relação entre os objetos
resolveram trazê-los a margem. Para prosseguir viagem,
colocaram-na de pé na areia ao lado das botijas e do
caixote.
Na volta, ao aproximarem-se da imagem,
perceberam que ela se encontrava com o semblante voltado
para o poente ao contrário de como a haviam deixado,
virada para o nascente. Surpresos, os caboclos
apressaram-se em retornar ao seu local de moradia para
contar o que acontecera.
No dia seguinte, o líder da comunidade foi até a Praia
do Una acompanhado de sua família e diante da imagem
puseram-se de joelhos e rezaram. Decidiram então,
levá-la para a Vila de Iguape, atravessando o Maciço da
Juréia, com a imagem carregada em uma rede de pesca.
Um grupo de pessoas da comunidade que
soube do achado da imagem, aproximou-se de Jorge Serrano
com a intenção de levá-la para a Vila de Nossa
Senhora da Conceição de Itanhaém, por esta ser a
sede da Capitania. Ao tentarem virar o cortejo para
aquela Vila, a imagem adquiriu um peso descomunal e, o
contrário aconteceu quando voltaram-na em direção à Vila
de Iguape. Encontraram então um lugar onde pararam pra
banhar a imagem sobre as pedras de um riacho, retirando
o salitre e preparando-a para sua chegada à Igreja de
Nossa Senhora das Neves. Esse riacho ficou conhecido,
daí por diante, como Fonte do Senhor e dizem que a pedra
sobre a qual a imagem foi banhada cresce continuamente.
No dia 2 de Novembro de 1647, terminada a
viagem, a imagem finalmente chegou à Vila de Iguape e
foi colocada no altar da Igreja. Não demorou muito para
que a fama da milagrosa imagem se espalhasse e, o número
de fiéis que vinha de longe pedir uma graça ao Senhor
aumentava a cada dia.
A imagem original do Senhor Bom Jesus saiu em procissões
até o ano de 1946. A partir dessa data, por motivos de
preservação e segurança da mesma providenciou-se uma
réplica, continuando a original entronizada no altar-mor
da (hoje) Basílica do Senhor Bom Jesus de Iguape.
Firmou-se a tradição de peregrinação à cidade. Em
Iguape, Nossa Senhora das Neves vem sendo a padroeira
desde o início da colonização do bairro do Icapara. Com
a mudança da população para o interior do Mar Pequeno,
iniciou-se, em 1614, a construção de uma nova igreja,
que lhe foi dedicada.
O Santuário do Bom Jesus, concluído em 1856, começou a
substituir a velha matriz e a partir daí, a Nossa
Senhora das Neves passou a ser cultuada no altar-mor
juntamente com o Senhor Bom Jesus de Iguape.
O Zé e os Discos Voadores
O Zé era um pedreiro Sergipano, ou melhor, mestre de
obras; que se mudou de Sergipe com sua mulher e três
filhas, para Itanhaém, na segunda metade da década de 60
(isso se passou há quarenta anos!!!). Moravam como
caseiros numa casa bem ali numa rua do Cibratel 1, quase
atrás daquele morrinho verde menor, ao lado do morro do
Paranambuco. Do quintal da casa, naquela época, tinha-se
uma vista de todo o Poço dos Índios, das Pedras e da
Praia do Cibratel. O Zé trabalhava muito bem, mas
gostava de uma caninha. Certa vez, numa daquelas noite
de verão daquela época, viu uma luz da cor de uma
estrela azulada, bem lá no alto, no céu, indo da praia
em direção da Serra. Toda a vizinhança correu para ver a
tal "estrela que andava no céu". O Zé dizia que nunca tinha visto aquilo
naquelas alturas, embora algumas pessoas que
presenciaram o caso, afirmavam tratar-se apenas um satélite
refletindo a luz do sol lá no espaço,
"pois
tem muitos que passam sobre Itanhaém", um vizinho do Zé,
comentou. O "Seu" Zé então disse:
"nunca vi tão alto deste
jeito! Já vi lá longe, em cima do horizonte, passando de
um lado para o outro, lá em cima do mar. Já vi bem de
perto também, chegando lá perto das pedras. Essas luzes passavam
bastante aqui por perto
quando mudamos para cá".
Quase nenhuma casa havia naquela época no bairro do
Cibratel. O tempo passou, a
família do Zé mudou para São Paulo, a família dona da
casa, vendeu o imóvel e o Zé já está morando
no andar de cima. Sobrou essa estória do Zé...ou seria uma
história?! Aqueles foram tempos muito bons.
Um Relato Dos Anos
Sessenta
Ainda me recordo muito bem dos anos sessenta. Em mil
novecentos e sessenta e seis, o loteamento chamado de
Cibratel 1 tinha pouquíssimas casas, mas desde aquela
época, todas que existiam no local eram amplas, bonitas
e imponentes. Lembro-me de um final de semana, naquela
época, um sábado, quando insisti em querer para o jantar
uma certa carne enlatada, ou seja, presuntada, também
conhecida como "kitute de boi". Supermercado nem havia
para aquelas bandas. Só mesmo o empório chamado de Sol
Nascente, que ficava no local do atual estacionamento do
Supermercado Krill, na esquina da Avenida Peruíbe. À
tardezinha, lá fomos comprar a carne de lata no "Sol
Nascente", incluindo laranjas para temperá-la e os
cravos da índia para espetar sobre a "rara iguaria", tal
qual um presunto de Natal à moda Americana. Embora nossa
casa tivesse toda fiação elétrica instalada, ainda "não
havia eletricidade" na rua. Lembro-me naquela noite de
observar meu pai, num quadro que jamais me esqueci: seu perfil
iluminado, sob a luz do lampião a querosene e minha mãe
na cozinha, assando a delícia, cortada em losângulos na parte superior, espetada com cravos da
índia em cada uma de suas intersecções e regada
frequentemente com o suco de laranja para não secar.
Lembro-me do gosto da "iguaria" até os dias de hoje, de
dar água na boca. Uma noite maravilhosa, de uma pureza
inacreditável. Após o jantar, me lembro bem de ter ido
até o portão verde de entrada e olhando lá no alto no
céu, observei as estrelas por detrás do poste de força
da casa, recém instalado; todas compondo
uma multidão incontável em sua marcha lenta, tranqüila e
silenciosa, brilhando resplandecentes sob um céu azul-marinho
reluzente cujo limite parecia ser o infinito. Nunca
me esqueci desta noite de sábado.
O Olho
D'Água do Morro do Paranambuco
Há muito tempo atrás, nos final dos anos 60, início do
anos 70, havia ainda um bom resquício de Mata Atlântica
no topo do morro do Paranambuco já bem devastado, no
lado oposto ao costão. A vegetação que ali havia e o
tipo de solo poroso, faziam escorrer água das chuvas
através de cipós, plantas rasteiras e do próprio solo,
até o sopé do morro, no areal. Alguém deve ter tido a
idéia de juntar fileiras de tijolos construir um pequeno
reservatório, um verdadeiro "olho d'água" naquela parte
do sopé, abaixo das plantas rasteiras que caíam pela
encosta. Era um local meio oculto pelas reentrâncias do
morro, revelando para os poucos que conheciam o local, a
pequena piscina de águas cristalinas cuja atmosfera
risonha era muito refrescante nos dias de calor intenso.
Infelizmente, com o processo de depredação que o morro
sofreu, este olho d'água parece ter desaparecido, para
sempre. Quisera a boa vontade e bom senso nortear o
destino do morro não como um centro de festas ou
eventos, mas sim de preservação, vocação primeira do
local, que ainda abriga um pequeno manguezal do lado
oposto do costão. Este manguezal antigamente muito
extenso, se estendia desde o local até o afluente do Rio
Itanhaém, no Bairro do Belas Artes, compondo um
eco-sistema que em parte foi substituído pelas casas do
Cibratel 1...
História do Camarão Na Moranga (Um "Causo" de Ubatuba)
Em 1945, o presídio da Ilha Anchieta em Ubatuba, Litoral
Norte, recebeu um grupo de japoneses. Eram presos
políticos de uma facção chamada Shindo Renmei. Ideólogos
japoneses que executavam seus compatriotas, aqui no
Brasil, por considerá-los amigos dos brasileiros e, por
conseguinte, traidores do Japão. Esses japoneses eram
muito trabalhadores e transformaram o capim-melado e o
sapezal da ilha em verduras e legumes. De tanto andarem
descalços e comerem peixe-porco cru, começaram a ficar
barrigudos, parecendo barriga d’água ou baiacu coçado.
Procuraram o médico da ilha e, feitos os exames
laboratoriais, o doutor constatou que a japonesada toda
estava com bicha. Não quiseram tomar os tradicionais
lombrigueiros dos caiçaras. Passaram então a plantar
abóboras, pois era das sementes das abóboras que eles
obtinham um poderoso vermífugo que acabava com os
vermes, lombrigas e até solitárias. Foi uma novidade
para os caiçaras moradores da ilha, que passaram também
a usar a tal homeopatia japonesa proveniente das
sementes de abóboras. João Pacu, morador da praia da
Enseada, era um sujeito magro, alto e barrigudo.
Barrigudo porque certamente também estava bichado. Uns
diziam que ele estava grávido de gêmeos e pelo
crescimento da barriga ia ter filho em agosto, onde
completava os nove meses. Diante daquela barriga e da
gozação que os amigos faziam, João Pacu encomendou mais
de cinqüenta abóboras dos japoneses da Ilha Anchieta.
João Pacu recebeu as abóboras e vivia comendo, em doses
homeopáticas, as sementes torradas. Em três semanas
estava curado. Tudo quanto era tipo de verme, lombriga e
até solitária, foi expulso da barriga de João. O homem
ficou esbelto novamente. Quem lhe trouxe as abóboras foi
seu amigo João Glorioso, comerciante do Saco da Ribeira,
que semanalmente levava e trazia mercadoria à Ilha
Anchieta. Aconteceu que, no transporte das abóboras, uma
delas caiu no mar durante o trajeto. Era uma abóbora do
tipo moranga. Caiu no mar e afundou, não dando pra João
Glorioso recuperar. Pão duro como era, ficou muito
sentido com aquilo. Fazer o que?! Fazer o que, é que ele
não ia perder aquela abóbora por nada. No outro dia lá
tava João Glorioso arrastando os mais diversos tipos de
redes de pesca para recuperar a abóbora. Arrastou puçá,
rede de cabo, picaré e até rede de tróia, o homem bateu,
pra ver se a abóbora malhava na rede. Mas não teve
jeito, a abóbora sumiu. Sumiu, mas depois de uma semana
apareceu no lagamá da praia da Enseada, exatamente em
frente ao restaurante da dona Zenaide e, por
coincidência, foi achada pela própria que, vendo aquela
beleza de fruto, não pensou duas vezes: “- Vou fazer um
cozido!” Pegou a abóbora e cozinhou inteira num panelão
de barro. Abóbora cozida, hora de apreciar! Foi aí a
surpresa. Ao abrir a tal abóbora descobriu que dentro
tinha pra mais de dois quilos de camarão sete-barbas.
Vendo aquilo e como boa cozinheira que era, trocou as
sementes por cheiro-verde, coentro de folha, tomate,
alho e cebola, e deu mais uma fervida na abóbora.
Pronto! Estava descoberto mais um prato típico da
culinária caiçara: “Camarão na Moranga”, prato este que
passou a ser o carro-chefe dos pratos do restaurante na
praia da Enseada. O curioso foi desvendar como os
camarões foram parar dentro da abóbora. Verificou-se
depois que naquela abóbora existia um buraco no lugar do
talo, e foi por ali que os crustáceos tinham entrado,
fazendo da abóbora uma segura e confortável moradia.
Depois dessa descoberta a receita do “Camarão na
Moranga” foi aprimorada para a receita que hoje se
encontra nos principais restaurantes de todo litoral
paulista, seja norte ou sul. Texto de Julinho Mendes -
Colunista site UBAWEB - www.ubaweb.com
Seu Pompeu
Seu
Pompeu era o homem mais simples e humilde que talvez
essa terra já tenha conhecido. Era do tempo que o
Cibratel era só mato. Cada esquina tinha mato alto. Luz
nem existia, só de lampião. Só mesmo a água encanada.
Nessa época e até o final dos anos 80, ele tomava conta
de seus cavalos, sempre muito atarefado. Puxava seus
cavalinhos por uma corda pelas ruas dos bairros do
Cibratel e Belas Artes.
A alegria da criançada na década de 60 e 70 era ver os
cavalos, as éguas e os potrinhos bem novos na rua. A
criançada daquela época também era muito boba e
acreditava no homem do saco. Há a lembrança de muita
criança que dizia que ele era o homem manco ou o homem
do saco.
"Lá vem o homem manco! Olha o homem do saco!"
Coisa de criança boba daquela época, o que hoje nem
existe mais. Seu Pompeu era um homem
honesto e muito bom. Depois de um tempo nunca mais
Seu Pompeu foi visto por essas bandas, mas mesmo assim,
aqui e acolá sempre tem um cavalinho ou uma égua com seu
filhote pastando pela orla da Praia do Peruíbe no Cibratel. Quem vê logo se
lembra do seu Pompeu...e daqueles tempos.
O Fantasma do
Caminho do Guaraú
Anoitecera e Anselmo ainda estava na Vila. Descuidara-se.
Agora teria que enfrentar o medo e arriscar-se a fazer o
"Caminho do Guaraú" em plena noite de sexta-feira. Só de
pensar nisso arrepiou-se e um frio percorreu-lhe a
espinha. Benzeu-se. Mas precisava voltar para sua casa
naquela noite, pois comadre Aureliana necessitava do
remédio que ele havia vindo buscar na Vila. E ali ele de
posse da encomenda em papel pardo e amarrada com um
pedaço de barbante. Embrulho pequeno, do tamanho de uma
pedra, que lhe cabia na mão, mas só de pensar no caminho
de volta, parecia que ardia em brasa.
Bem, não havia outro jeito. Ele precisava iniciar o
regresso do rio acima, onde morava. Apesar de não ter
por costume vir à Vila para a missa das manhãs dos
domingos, era devoto fervoroso de Nossa Senhora da
Conceição e ela, com certeza, o protegeria em seu
retorno à casa. Armou-se de coragem, tomou de um só gole
a dose de aguardente ali no armazém do largo da matriz e
partiu. Desceu a ladeirinha estreita e pedregosa que ia
até a rua de baixo e tomou o rumo do Guaraú.
Chegara à Vila após o almoço, depois de muita remada, e
deixara sua canoa amarrada no porto e, a essa hora, ela
era o único meio para voltar para casa. Novamente o frio
na espinha. Agora a noite estava totalmente fechada e
começara a soprar um vento gelado. Os galhos dos enormes
pés de eucalipto, no início da caminhada, balançavam-se
preguiçosamente e o assobio do vento parecia avisá-lo de
que ficasse atento.
Apertou com a mão esquerda o vidro de remédio que
colocara n bolso da calça e, com a direita, por sob o
casaco puído, o pedaço de pau que havia achado junto à
cerca de um quintal. Era sua única arma: um bom pedaço
de caule de goiabeira, bem roliço e duro e de bom
tamanho para qualquer alma do outro mundo que quisesse
assustá-lo. Que viesse o fantasma do caminho do Guaraú!
Ele estava preparado para enfrentá-lo.
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Todos os moradores do lugar morriam de medo da conhecida
aparição que rondava o Morro do Itaguaçu (Morro do
Convento), depois da fonte do Itagüira (que fica no sopé
do Morro do Convento, próxima do Mercado Municipal). Ir para aquelas
bandas durante a noite era coisa que ninguém pensava em
fazer; muito menos às sextas-feiras, pois naquela área
várias pessoas já tinham visto a tal assombração: alta -
com dois metros de altura, diziam uns - e toda branca,
emitindo, com sua enorme boca, sons horripilantes.
Todos eram conhecedores do que havia acontecido ao
compadre Alcebíades, que numa noite havia-se aventurado
a fazer o caminho do Guaraú e deu de cara com a alma do
outro mundo. Encontraram-no pela manhã do dia seguinte
com o cabelo todo branco e sem condições de emitir uma
'só palavra. havia também a estória do
Narciso-Boca-Aberta, negro valentão e cheio de garganta,
que dispôs-se a dar fim à aparição e quase morreu nessa
empreitada. Narravam alguns que o negro Narciso
embrenhou-se pelo caminho do Guaraú, armado de uma
espingarda, em plena noite de sexta feira e só
reapareceu uma semana depois, queixo-caído, recusando-se
tenazmente a contar o que lhe havia acontecido;
recebendo, a partir daí, a alcunha de
Narciso-Boca-Aberta, pois jamais conseguiu colocar o
maxilar inferior no lugar. |
Com o pensamento nessas histórias, Anselmo passou pelos
eucaliptos e pela fonte do Itagüira. Daquele trecho em
diante o caminho se estreitava, transformando-se em uma
trilha irregular, por entre árvores e matagal alto.
havia caminhado um pequeno trecho quando na curva do
morro, ouviu um assobio e um barulho de bater de asas
muito estranhos. Parou para ouvir melhor e voltou-se
apertando fortemente o pau de goiabeira. Foi então que
viu, entre as árvores, movimentando-se morro abaixo, a
alma do outro mundo.
Sentiu enorme arrepio e sua respiração imediatamente
tornou-se ofegante. Parecia que o coração ia lhe sair
pela boca. Apertou com mais força o pau de goiabeira e,
paralisado, viu a aparição, toda branca, vir em sua
direção. Queria fugir dali, mas as pernas não lhe
obedeciam. E o vulto fantasmagórico ficava cada vez mais
próximo. Foi então que num esforço tremendo, voltou-se
nos calcanhares e começou a correr. Corrida louca. Louca
e curta: um tronco caído no caminho interrompeu-lhe a
trajetória e Anselmo foi arremessado longe, o corpo para
um lado e o pau de goiabeira para outro. Ergueu-se
rapidamente e tentou encontrar sua única arma de defesa.
Em vão. Agora estava perdido, pois a assombração estava
bem mais próxima a ele. Se pelo menos achasse uma pedra
poderia tentar acertá-la, pois era bom no arremesso.
Quando menino, ninguém lhe fazia sombra na técnica de
atirar pedras. Mas ali, naquele meio de mato, onde iria
arranjar uma boa pedra? Não havia jeito. Sentiu que era
o seu fim e preparou-se para receber o golpe final. Que
Nossa Senhora da Conceição intercedesse por sua alma
junto ao Pai!
Foi então que se lembrou do remédio da comadre
Aureliana. Não teve dúvida. Era sua única chance.
Rapidamente enfiou a mão no bolso, passou o embrulho
para a mão direita, segurou-o com firmeza e,
movimentando o braço, arremessou-o com toda força em
direção à cabeça da assombração, que agora estava a
poucos metros dele. Escutou um baque surdo seguido de um
grito de dor e, depois, de alguns segundos, o barulho de
um corpo caindo. Havia derrubado o fantasma!
Não quis conferir o feito. Desembestou a correr pelo
caminho em direção ao porto. Lá chegando, pegou sua
canoa e pôs-se a remar em desespero, parando de usar o
remo somente quando chegou na ilha do rio acima. Só
então voltou a lembrar-se do remédio da comadre
Aureliana. O fantasma, provavelmente, já o teria
engolido. No dia seguinte ele iria explicar-se e ela,
certamente o entenderia. Voltaria à Vila e compraria
outro vidro de xarope. Por hoje, bastava tudo o que lhe
havia acontecido. Amanhã seria um outro dia.
Amarrou a canoa no trapiche e depois vagarosamente,
passo a passo, chegou em casa. Abrou a porta, foi até a
cozinha, pegou a garrafa de cachaça e tomou-a
inteirinha; e, antes de cair desmaiado sobre a cama,
jurou a si mesmo que nunca mais iria fazer o caminho do
Guaraú durante a noite.
Essa foi a última aparição do fantasma do caminho do
Guaraú de que se teve notícia. Pena que Anselmo nunca
mais se atreveu a fazer o caminho durante a noite para
poder conferir o fato. E, principalmente, pena que ele
não freqüentasse as celebrações do Convento, pois no
domingo seguinte ao acontecido, pela manhã, na missa
costumeiramente rezada pelos franciscanos que viviam no
convento, um dos frades apresentava enorme "galo" no
meio da testa.
Maria Tereza Leal Diz
O Tesouro
Escondido de Itanhaém
O conhecido assobio entrou por seus ouvidos e
imediatamente Isaías levantou-se da cama. Chegou-se à
janela fechada e também com um assobio respondeu ao
sinal. Sob a luz da lâmpada consultou o velho relógio
que ficava em cima do criado-mudo e conferiu: onze da
noite, conforme o combinado. Antonio Pedro estava sendo
pontual. Havia-se deitado com roupa e tudo, aguardando o
chamado do primo, de forma que não o faria esperar
muito. Silenciosamente, segurou a lamparina em uma das
mãos e o surrado par de tamancos na outra. Saiu do
quarto e fechou cuidadosamente a porta. Pé ante pé
passou pelo corredor, não sem antes colocar o ouvido
junto à porta do quarto de sua mãe, para certificar-se
de que ela estava dormindo. Não haveria problema: dona
Sebastiana dormia a sono solto. No quarto ao lado,
repetiu o movimento. Suas irmãs também dormiam.
Passou rapidamente pela cozinha, apagou a lamparina,
colocou-a sobre a mesa e, calçando os tamancos, saiu
para o quintal. Ao lado do velho quartinho de madeira,
sem porta e de teto baixo, pegou a enxada, a pá, o rolo
de corda e o lampião de querosene que antes de deitar
havia separado e dirigiu-se para o fundo do quintal.
Passando por uma abertura na velha cerca do terreno,
ganhou a rua. Apalpou o bolso da camisa, para
certificar-se de que a caixa de fósforos ali estava e,
sem mais demora, tomou o caminho que ia até o largo da
matriz. Noite escura, mas o tempo estava firme. Uma leve
brisa jogava em seu rosto o cheiro do mar. Silencio
total. Com certeza ele e o primo eram os únicos
moradores da Vila que estavam acordados. Cruzou a praça
rapidamente e dirigiu-se para a velha figueira, atrás da
igreja. Era o local combinado pra se encontrar com o
primo Antonio Pedro, que já estava a sua espera e
igualmente munido de uma pá e de uma enxada.
Cumprimentaram-se rapidamente e tomaram o rumo do Morro
do Itaguaçu. Com passadas largas, caminharam até o velho
cruzeiro, rodearam-no, cruzaram a linha da estrada de
ferro e, passando pelo matagal próximo ao túnel, foram
até a entrada do último arco da subida do convento - o
mais próximo ao morro. Isaías e Antonio Pedro tinham a
mesma idade (dezessete anos). Mais que parentes, eram
grandes amigos. As respectivas mães eram irmãs e
davam-se muito bem, tendo criado os filhos sempre
juntos. Não havia dia em que um não passasse na casa do
outro. Brincadeiras, travessuras, pescarias, banhos de
rio, idas ao mangue para pegar caranguejos ou ao jundu
para catar cambucás, eram sempre feitas em conjunto.
Isaías, fisicamente bem mais forte que Antonio Pedro,
era o líder da dupla. Até na escola haviam sido colegas
inseparáveis e, nesses anos todos de convivência, jamais
haviam tido qualquer desentendimento, por menor que
fosse. Ainda meninos, por volta dos nove anos,haviam
feito um pacto de amizade, jurando sinceridade absoluta
um ao outro, com a promessa de jamais dividirem seus
segredos com outras pessoas.
Bem, agora estavam envolvidos em uma nova e emocionante
empreitada: desenterrar um tesouro! Ali estavam eles a
poucos passos de uma fortuna que, certamente, iria
torná-los ricos e famosos! Já se viam estampados nos
jornais: Jovens intrépidos descobrem imenso tesouro em
Itanhaém! O momento de glória estava bem próximo; era
arregaçar as mangas e executar o trabalho. Chegando à
beira da estrada, Isaías largou a pá, a enxada e o rolo
de corda no chão e ascendeu o lampião. Sentiu que os
dedos tremiam ao riscar o fósforo. Em seguida, ele e o
primo, com os corações batendo forte, entraram pela
abertura em arco. No fundo da edificação, sob a luz do
lampião colocado sobre uma pedra, começaram a trabalhar.
Com as enxadas, retiraram o mato junto à sólida parede
de pedra abrindo uma clareira e puseram-se então a
cavar. Por algumas horas, o único som que se ouviu foi o
cavoucar das pás. O terreno, até quase um metro de
profundidade, compunha-se de muito cascalho e pedras -
decorrentes ainda da execução da rampa de acesso ao
convento e da construção da estrada de ferro - a partir
daí, era só terra, restos de conchas quebradas e areia.
Já sem as camisas, corpos suados, revezavam-se no
trabalho, silenciosos, com a ansiedade estampada nos
olhos. A expectativa foi quebrada quando se ouviu um som
surdo da pá contra algo em metal. Isaías, no fundo do
buraco, largou a pá e abaixando-se, utilizou-se das mãos
para retirar a terra que ainda cobria o objeto. Antonio
Pedro, agachado à beira do buraco segurando o lampião,
observava atentamente o primo. Com o coração aos saltos,
Isaías rapidamente retirou a terra em volta de todo
objeto. Era uma arca, toda em cobre, de formato
retangular, com duas alças laterais e fechada por um
cadeado. Tentou levantá-la mas não conseguiu. Era muito
pesada; iria precisar da ajuda do primo. Pediu-lhe a
corda que haviam trazido, passou-a entre as alças da
arca e então a ergueram até a beira do buraco.
Utilizando-se de uma das enxadas, arrebentaram o cadeado
e levantaram a tampa da caixa. De dentro da arca pedras
multicores passaram a refletir a luz do lampião. Moedas,
jóias de diversos formatos, em outro, e pedras preciosas
compunham um imenso tesouro. Eles o haviam encontrado!
Desde meninos ouviam a história de que, no período da
colonização, um galeão português havia naufragado
próximo à costa e três sobreviventes haviam conseguido
chegar até a praia em um bote. Entraram então pela barra
do rio e aportaram ao pé do Morro do Itaguaçu (naquela
época o leito do Rio Itanhaém beirava aquela elevação).
Para se precaverem, enterraram o tesouro na ponta do
morro, fazendo um mapa do local, na intenção de, mais
tarde, irem buscá-lo. Não conseguiram, no entanto,
realizar seu intento, pois morreram em confronto com os
índios que habitavam a região. O mapa feito pelos
náufragos caiu nas mãos dos jesuítas que o mantiveram em
segredo, permanecendo a arca enterrada durante todo esse
tempo. Ainda incrédulos com o achado, os dois primos mal
podiam crer que não estivessem sonhando. Boquiabertos,
permaneciam durante uns bons minutos a olhar aquele
imenso tesouro, quase com medo de tocá-lo. um lindo
colar de esmeraldas destacava-se das demais peças e
Isaías tomou-o entre as mãos. Antonio Pedro tocou
levemente os rubis que adrornavam um bracelete de ouro.
Estavam extasiados! uma imensa e maravilhosa fortuna!
Entre gritos de alegria, cobriram-se daquelas jóias
todas e puseram-se a pular em torno da arca. Estavam
ainda envolvidos naquela imensa magia, quando ouviram o
cantar de um galo, bem próximo doe onde estavam. Haviam
perdido a noção do tempo! Logo iria amanhecer.
Precisavam sair dali o quanto antes.
Rapidamente recolocaram as jóias na arca, fecharam-na e
taparam o buraco que haviam feito. Passaram a acorda
pelas alças da arca e a amarraram a um pau comprido e
forte que encontraram, no local, colocando-o sobre os
ombros. jogaram ainda por cima as pás e as enxadas e
puseram-se a caminho, com Isaías à frente, levando o
lampião de querosene. saíram pela abertura em arco e
pegando o caminho de baixo, tomaram o rumo da casa de
Antonio Pedro, pois haviam decidido guardar ali o
tesouro. Para encurtar o caminho, entraram no terreno
arenoso, próximo aos fundo do Hotel Esplanada. Estavam
quase terminando de passar por aquele trecho deserto,
quando ocorreu o acidente.
Uma das pás caiu de cima da arca sem que Isaías
conseguisse segurá-la. O primo, que vinha atrás, não
percebeu imediatamente o que havia acontecido e pisou na
borda da pá, fazendo com que a ponta do cabo batesse
violentamente em sua testa. O golpe fez Antonio Pedro
cair por terra e, atrás dele, caíram também os demais
apetrechos, a arca e, por último, Isaías, com lampião e
tudo. Foi um pandemônio! Isaías levantou-se rapidamente
mas o primo permaneceu caído no chão, sem sentidos.
Inúteis foram as tentativas para acordá-lo. Isaías
viu-se em brasas: o primo e a arca no chão e ele sem
saber o que fazer. A arca era muito pesada. Impossível
carregá-la sozinho. O dia já estava amanhecendo e ele
teria que solucionar o problema. Resolveu então enterrar
a arca ali mesmo. Fez um buraco não muito profundo,
juntou a um pé de araçá, empurrou a arca para dentro
dele e tampou-o rapidamente. Escondeu os apetrechos em
uma touceira próxima, passou seu braço direito por baixo
dos ombros de Antonio Pedro e, arrastando-o, tomou o
caminho da casa do primo, próxima dali.
Ao chegar, encontrou a tia já acordada, fazendo café.
Após os susto de dona Carolina, colocou o primo na cama,
dizendo que ele e Antonio Pedro haviam saído durante a
madrugada para visitar a rede de robalão que haviam
colocado próximo à barra do rio e, no retorno, o primo
havia levado um tombo e batido com a cabeça em uma
pedra, ficando desacordado. A tia apressou-se a aplicar
compressas na testa do filho, que já apresentava enorme
"galo". Aos poucos, Antonio Pedro voltou a si. Olho
arregalados, olhar dirigido para o nada, começou a
pronunciar palavras desconexas, parecendo não reconhecer
a mãe e o primo. Nem Isaías, nem dona Carolina
conseguiram entender o que ele dizia. Inúteis foram as
tentativas em fazer com que ele voltasse à razão. A
partir daí, jamais foi o mesmo. O povo da Vila de
Itanhaém espantou-se como acontecido mas, aos poucos, as
pessoas conformaram-se com o destino do único filho da
comadre Carolina. Como eles próprios falavam, Antonio
Pedro havia ficado "gireme".
Isaías por diversas vezes, tentou conversar com ele
sobre o tesouro que haviam encontrado, mas foi em vão. O
primo não lembrava de mais nada. Sofria com a situação
do primo e sentia-se preso ao pacto que haviam feito.
Não poderia usufruir do tesouro sozinho e tampouco
poderia contar para alguém sobre sua existência. Não
seria justo. Estria atraiçoando Antonio Pedro. Decidiu
manter o segredo da descoberta e deixar o tesouro
enterrado. Muitos e muitos anos depois, à beira da
morte, Isaías contou ao filho mais velho sobre o
acontecido, exigindo-lhe, no entanto, que jamais
desenterrasse o tesouro. E assim foi feito.
Maria Tereza Leal Diz
Uma
Noite de Reis
Madrugada. Noite linda. Na casa às escuras está a
menina, atrás da porta. De camisola, chinelinho nos pés,
com sono, mas investida de usa grande responsabilidade
daquela noite: dali a alguns instantes vai entregar a
prenda aos "Reis" (um prato de cocadas tradicionalmente
feitas por seu irmão mais velho, Nestor). Ele, também em
pé, ao seu lado, coloca o dedo sobre os lábios,
indicando-lhe que ela deve permanecer em silêncio. A
música soa alto e é bonita. Ela já a conhece e até sabe,
de cor, alguns versos: "Acordai se estás dormindo...". É
gostoso ouvir e a menina chega até a marcar com um dos
pezinhos o ritmo alegre da canção.
A música pára. Silêncio. O momento mágico chegara. O
irmão abre a porta e os "Reis" ali estão, com seus
instrumentos musicais e seu alegre "boa-noite"! Com eles
vêm também o frescor da madrugada e um céu salpicado de
estrelas. Consciente de seu papel, ela lhes entrega a
prenda. Eles somente sorriem e agradecem. E a música, a
seguir, volta com toda a força e magia: "Agradecemos o
rei, dado por mão da menina..."
E ela fica a olhá-los, num misto de alegria e
deslumbramento. A música chega ao fim. Boa noite. Vão
embora. O irmão fecha a porta e ela se recolhe ao seu
quarto. Deita-se, os olhinhos brilhando de emoção: Os
"Reis" haviam estado em sua casa! Ainda escuta a canção
distante. O sono vem chegando e a música cada vez mais
longe, mais longe...
Maria Tereza Leal Diz
Ressaca no Mar
Depois de quinze dias de chuva, amanheceu
um dia todo azul, maravilhoso! Vovó vestiu o maiô e
levou as duas netas, para a praia. A praia estava cheia
de detritos. As duas olharam com espanto para tudo
aquilo. Vovó explicou: "Vocês estão vendo as
montanhas da serra lá longe?" As duas afirmaram que
sim. "Pois é quando chove as fazendas de bananas e
maracujá lá na área rural se inundam com as águas e o
rio cheio d'água trás os restos de bananeiras, troncos
arrancados, retorcidos e os aguapés para o mar. Mas é
uma coisa que vem da natureza e que não faz mal para o
ciclo das águas! O que faz mal para o meio ambiente é o
lixo que o homem joga na praia, entenderam?" "Sim vovó,
isso não é igual às latas, copinhos e sacos de plástico
que as pessoas jogam nas praias." "Isso mesmo queridas,
agora vejam o que o rio nos mandou; olhem essa grande
árvore que foi arrancada pela força das águas... Vamos
explorá-la?" As três correram imediatamente para a
árvore arrancada e jogada na areia da praia, olharam bem
as raízes, o tronco e os galhos ainda com folhas.
Depois, as meninas subiram na mesma e andando sobre ela,
gritavam de braços abertos: "Somos donas do mundo,
donas do mundo!"
Baseado no Conto de
Maria Clarinda Algabra
Conte o seu Causo Aqui...
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