São Paulo de Piratininga
Pouca coisa havia naquele lugar, a não ser a Mata Atlântica,
nativa e muito exuberante, com muita revoada de pássaros
tropicais. Clima ameno no verão, muita garoa ao
anoitecer e chuvas constantes. Frio no inverno. Enfim, um clima como
o das
terras de Espanha, como teria observado Anchieta. São Paulo
começou numa grande colina
cercada por rios, perfeita como baluarte de defesa: o Rio
Tamanduateí (Rio dos Tamanduás) que na época das cheias
inundava a área conhecida como Várzea (hoje o Parque Dom Pedro),
deixando muito peixe aprisionado nas lagoas que se formavam e
por isso mesmo, originando o nome do local, Piratininga: Peixe Seco; o
Rio Itororó (atual Avenida 23 de Maio), o Rio Saracura
(atual Avenida 9 de Julho) e o Rio e Vale do Anhangabaú
(vale do demônio) local temido pois ali habitava o Kaáguara, o
morador do mato, o Anhangá. O Colégio ficava ali perto de um
despenhadeiro, com vista para o Leste, local de
vigilância contra as incursões Tupinambás que chegavam do Litoral Norte e do
Vale do Paraíba. Esta colina era de fato um pequeno
planalto, constituído de mata densa com alguns caminhos como
os do Inhapuambuçu (Rua XV de Novembro) e o Caminho do
Sertão (Rua Direita). Eis aí, portanto, a São Paulo do Século 16.
Regiões da São
Paulo de Piratininga
Na direção
Norte, apenas um caminho (Rua Florêncio de Abreu), localizado depois da
cabana de Tibiriçá (Mosteiro de São Bento), o qual conduzia até as
proximidades da aldeia do Índio Caiubi, irmão de Tibiriçá (cercanias do Bom
Retiro). Dali, uma bela vista de toda a Serra da Cantareira
que em direção ao Leste, no Vale do Paraíba, atinge altíssimos
picos e muda de denominação para a de Serra da Mantiqueira.
Na direção do
Sul, encontrava-se a aldeia do Cacique Tibiriçá nas
cercanias do atual Fórum João Mendes Junior, um pouco abaixo, perto do
Caminho do Mar (Rua da Glória), muito usado pelos
Tupiniquins para subir a Serra assim como também pelos
Guaianases quando iam no inverno pescar nas praias do Litoral de
Santos e São Vicente; época em que os grandes cardumes fugindo
das águas frias em alto mar, procuravam refúgio se aproximando
das águas mais quentes da costa. Era nesta época que os Índios pescavam
e moqueavam o peixe (assavam na grelha chamada de moquém),
triturando o alimento com a farinha de mandioca para que esta
mistura se conservasse por muito tempo, trazendo depois este
mantimento para o Planalto. A vista em direção ao sul, era de
densa floresta, até as colinas onde hoje se situa a Avenida
Paulista. Bem mais ao sul pouco se conhecia:
teria havido um lago bem grande (no local do atual Parque do Ibirapuera),
circundado por muito brejo (Jardim América, Jardim Europa, Jardim
Paulista) até se chegar ao Rio Pinheiros e à aldeia do Ibirapuera
propriamente dita
(pau ou árvore podre), localizada perto da região de Santo Amaro e nas cercanias
deste rio, ao Sul. Para o Sudoeste, muitos morros íngremes
(região da Av. Paulsita) e logo abaixo ainda muito brejo
havia, até
se chegar à uma outra aldeia, localizada em Pinheiros, próxima
deste rio onde nas margens haviam muitas capivaras, jacarés e
caça abundante.
Na direção do
Leste, havia uma grande várzea, formada pelo Rio Tamanduateí
(em Tupi) ou Rio dos Tamanduás, o qual na época das cheias, formando
lagoas, deixava o peixe aprisionado, dando assim, origem ao nome
do local: Piratininga (paraty/piraty: peixe branco; ningá:
seco; pronuncia correta: piratiningá). Era o local de partida para o Vale do Paraíba em
direção ao Rio de Janeiro, que sequer havia sido fundado, onde
naquele local se encontrava a França Antártica de Villegagnon,
com o Forte de Coligny instalado na Ilha que hoje está ligada ao
continente, ao lado do Aeroporto Santos Dumont. Para o
Oeste, ultrapassando-se o temido vale do anhangá (Anhangabaú),
chegava-se até o local que bem mais tarde ficou conhecido como
Largo dos Curros (Praça da República) e mais um pouco para frente
à uma aldeia, no atual Largo do Arouche.
Índios Locais
Os índios
habitantes do local eram os Guaianás (ou Gaianases),
da mesma família Tupi, liderados pelo Cacique Tibiriçá e por seu irmão, Caiubi,
amigos dos Portugueses. João Ramalho, náufrago ou degredado que
Martim Afonso de Souza já encontrou morando entre os índios
quando chegou à São Vicente, havia desposado a filha de
Tibiriçá, a Índia Bartira (Potira), estabelecendo
assim relações de amizade não só com os Guaianases mas como também com
os Tupiniquins da Costa de São Vicente. Os índios Guianás ao que tudo
indica, não praticavam o canibalismo ritualístico como seus
irmãos Tupinambás no Litoral Norte e Tupiniquins no Litoral Sul
de São Paulo (de São Vicente e Itanhaém até Cananéia).
Ramalho e Bartira geraram muito filhos mamelucos, os quais são a
origem dos primeiros Paulistas.
Uma maquete em gesso de 1955,
obra de Laurindo Galante, da Escola Técnica Getúlio
Vargas (atual FGV), retrata com perfeição como teria sido a
Colina Histórica de Piratininga no Século XVI, mostrando as indicações
dos locais atuais. Venha conferir, portanto, a São Paulo daquela época
em nossas fotos exclusivas e descubra um mundo de
novidades!
Atualmente, o
local onde foi fundada São Paulo, o
Pateo do Collegio, ainda é administrado pelos Jesuítas,
possuindo um conjunto de mostras de grande interesse como o
museu, a maquete de São Paulo acima exibida nas fotos
exclusivas, os jardins internos, a cripta com mostras de arte e
a capela, com o anexo da Sala do Oratório do Beato José de
Anchieta, onde são exibidas relíquias como o manto,
totalmente restaurado e o fêmur, que teria sido do sacerdote.
Pateo do Collegio
Foi neste local, em Piratininga, que foi erguido o
Colégio
de São Paulo de Piratininga, com sua Capela, fundando-se assim a
São Paulo de Piratininga
a 25 de janeiro de 1554, inclusive
com a transferência da então Câmara Municipal de Santo André da
Borda do Campo para junto do Pateo do Collegio. Foi nesta data
celebrada uma primeira missa pelo Padre Paiva na presença
de José de Anchieta, Manoel da Nóbrega, João Ramalo e sua
esposa Bartira (Portira) e dos Índios Tibiriçá
(genro de Ramalho e pai de Bartira) e de Caiubí. A
conclusão das obras se deu 2 anos depois, em data de primeiro de
novembro de 1556.
Findos os trabalhos de catequese
séculos mais tarde, o Pateo do Collegio passou por diversas transformações dando lugar
à diferentes instituições. Em 1765, como foram confiscados os
bens dos padres (expulsão dos Jesuítas pelo Marques de Pombal -
Episódio das Missões no Sul do País), o governo da Província se instalou no
convento dos Jesuítas. O Pátio passou a se chamar Largo do
Palácio. Nesse prédio foi instalado o primeiro teatro de São
Paulo, o Ópera, com 350 lugares. Ainda, em 1882, parte do
Colégio foi demolida e passou a ser o Palácio do Governo. Antes,
porém, serviu de residência de bispo e governador, em 1759 e 1765
respectivamente e também foi casa de fundição. Em 1954, ano do
IV Centenário da Fundação de São Paulo, finalmente, a
propriedade passou a pertencer à antiga Companhia de Jesus
(representada pela Sociedade Brasileira de Educação), que
construiu uma réplica do antigo prédio. Uma das maiores
relíquias do Pateo, e talvez da cidade, são o Fêmur do Padre
Anchieta e a parede de taipa, original, da época da sua
construção. A taipa utilizada era feita de barro, terra úmida,
folhas, ervas e até sangue de boi e estrume, que eram misturados
e socados num pilão. Depois todo esse material era colocado em
duas pranchas verticais para que a mistura secasse.
História das Relíquias do Padre José de Anchieta
Em 1760, após a
expulsão dos Jesuítas do Brasil, o Marquês de Pombal, em nome do
Rei Dom José I, solicitou que a Superior Companhia de
Jesus na Bahia enviasse para Portugal um baú de jacarandá
contendo ossos humanos e um manto de tecido castanho claro que
teriam sido do Beato José de Anchieta. Em 1964, o baú foi
encontrado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa,
fato amplamente divulgado e discutido na imprensa portuguesa da
época. Solicitado a Portugal desde 1971, o Governo de São Paulo
conseguiu finalmente o retorno do baú com os ossos e o manto no
final da década de 80. Este passou a ficar exposto na Capela de
Anchieta, no Pateo do Collegio. Inteiramente restaurado,
o manto que pertenceu a Anchieta deverá passar a integrar este
Oratório, espaço dedicado ao culto ao Beato na Capela do
Pateo do Collegio (grafia original).
A Relíquia do
Beato José de Anchieta: em 1609, doze anos após a morte de
Anchieta, seus restos mortais foram exumados da Igreja de
Santiago, em Vitória do Espírito Santo e transladados para a
Catedral de Salvador na Bahia. Por ordem do Superior Geral da
Companhia de Jesus, o fêmur aqui exposto foi transferido em 1610
para Roma onde permaneceu durante três séculos e meio. Após a
instituição do "Dia de Anchieta", em 1965, a ser comemorado em
todo o território nacional em 9 de junho, data do seu
falecimento, foi providenciada a restituição da relíquia ao
Brasil, destinada desde então a permanecer exposta à
contemplação, no Pateo do Collegio, em São Paulo, de
forma a exortar a devoção pelo Beato, que morreu abrasado pelo
amor ao seu próximo e ao Brasil. Confira nas fotos abaixo!
Canonização de José de
Anchieta
O processo
de
canonização de do Beato Padre José de Anchieta continua
tramitando no Vaticano, embora a capela do Pateo do Collegio já
exiba uma imagem monumental do Beato no altar, assim
como a Catedral da Sé exibe uma imagem em gesso na nave central.
O papel de
Anchieta tem sido revisto pela História do Brasil. Ele teria sido polêmico, devido a algumas
declarações que teria externado sobre os indígenas, notadamente
os Tupinambás, amigos do Franceses (fizeram amizade com os
Franceses haja vista terem sofrido
muito com a escravização promovida pelos perós - Portugueses). Contudo,
já em Vitória, no atual Estado do Espírito Santo, onde morreu,
teria ele declarado que se dava melhor com os índios do que com
os Portugueses. Seu papel
na História, assim como aquele do Padre Nóbrega, é
importantíssimo, pois ambos foram os responsáveis pelas pazes
com os Tupinambás e pelo desmantelamento da Confederação dos
Tamoios, que ameaçava São Vicente e o empreendimento português
no Brasil, preservando assim a unidade do Brasil em um só
território, sob uma mesma língua e uma mesma fé. Lembramos que
os abarés (padres), sempre lutaram pelos Índios e pela
liberdade, como ainda ficou edivenciado bem mais tarde, no
episodio das Missões Jesuíticas no Sul do Brasil, o que levou
inclusive à
expulsão dos Padres Jesuítas do Brasil por ordem do Marques de Pombal.
Note-se que caso
a Confederação vingasse, São Vicente por certo teria sido
destruída, assim como o Pateo do Collegio, é verdade, com a
expulsão do invasor Português, mas por outro lado,
prestigiando-se da mesma forma, outros invasores, só que nos
caso os Franceses,
amigos dos Tupinambás, o que teria talvez contado para que
vingasse uma França Antártica
protestante no Rio de Janeiro, dividindo assim, o território do
Brasil.
Como
Brasileiros, não devemos somente muita gratidão pelo nosso país, língua,
território imenso, fé e caráter, a Portugal; devemos tudo isto e
muito mais também à Igreja Católica e
aos abarés (padres) que embrenhavam-se nos matos, catequizado e levando
conhecimento a todos os Indígenas. E devemos muito também aos
índios: a
Cunhambebe, Aimberê, Pindobuçu e Coaquira por terem aceitado o
Tratado de Paz de Iperoig; a Tibiriçá, Caiubi e
tantos outros que ajudaram na mantença da São Paulo de
Piratininga, assim como também aos
bravos Bandeirantes Paulistas, os quais, com esforços imensos,
mesmo que com muitíssimos erros, mas também com muitos acertos,
demarcaram um grande território e fizeram do Brasil essa imensidão
gigantesca que de fato se concretizou!
Agradecemos a
gentil colaboração da Sra. Mariana Emiko Fuzissaki e à
Administração, que autorizaram e permitiram as fotos do local.
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