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Pateo do Collegio

   
 

Por iniciativa de Nóbrega, construiu Anchieta com a ajuda de outros irmãos, do Cacique Tibiriçá e de seu irmão, o Índio Caiubi, uma casa de pau a pique, numa grande colina bem no centro dos Campos de Piratininga (Peixe Seco), a qual serviria como escola, centro catequista e de proteção para os Brasis (Índios), amigos dos Portugueses. Estava fundada a São Paulo de Piratininga em 25 de janeiro de 1554. Posto de observação contra os ataques dos destemidos e heróicos Índios Tupinambás que chegavam pelo Leste, vindos do Vale do Paraíba e Litoral Norte de São Paulo, para lutar contra o invasor Português que violentava e destruía as famílias indígenas Tupinambás, escravizando-as para o trabalho penoso nos engenhos de cana-de-açúcar de São Vicente.

O local onde se edificou o Colégio possuía clima ameno, não tão tórrido quanto o do litoral. Era  um posto avançado no interior, em local seguro e defensivo. Baluarte da tranqüilidade para que os irmãos executassem o trabalho junto aos catecúmenos e longe "do barulho", do tráfico de Pau-Brasil, dos portugueses amancebados, das heresias e do canibalismo ritualístico indígena que imperava em todo litoral do Brasil, desde o Norte até as cercanias de Cananéia. Saiba mais aqui e venha conhecer como de fato foi a São Paulo no Século 16 (acerca de 1554)!

 

São Paulo de Piratininga

Pouca coisa havia naquele lugar, a não ser a Mata Atlântica, nativa e muito exuberante, com muita revoada de pássaros tropicais. Clima ameno no verão, muita garoa ao anoitecer e chuvas constantes. Frio no inverno. Enfim, um clima como o das terras de Espanha, como teria observado Anchieta. São Paulo começou numa grande colina cercada por rios, perfeita como baluarte de defesa: o Rio Tamanduateí (Rio dos Tamanduás) que na época das cheias inundava a área conhecida como Várzea (hoje o Parque Dom Pedro), deixando muito peixe aprisionado nas lagoas que se formavam e por isso mesmo, originando o nome do local, Piratininga: Peixe Seco; o Rio Itororó (atual Avenida 23 de Maio), o Rio Saracura (atual Avenida 9 de Julho) e o Rio e Vale do Anhangabaú (vale do demônio) local temido pois ali habitava o Kaáguara, o morador do mato, o Anhangá. O Colégio ficava ali perto de um despenhadeiro, com vista para o Leste, local de vigilância contra as incursões Tupinambás que chegavam do Litoral Norte e do Vale do Paraíba. Esta colina era de fato um pequeno planalto, constituído de mata densa com alguns caminhos como os do Inhapuambuçu (Rua XV de Novembro) e o Caminho do Sertão (Rua Direita). Eis aí, portanto, a São Paulo do Século 16.

Regiões da São Paulo de Piratininga

Na direção Norte, apenas um caminho (Rua Florêncio de Abreu), localizado depois da cabana de Tibiriçá (Mosteiro de São Bento), o qual conduzia até as proximidades da aldeia do Índio Caiubi, irmão de Tibiriçá (cercanias do Bom Retiro). Dali, uma bela vista de toda a Serra da Cantareira que em direção ao Leste, no Vale do Paraíba, atinge altíssimos picos e muda de denominação para a de Serra da Mantiqueira.

Na direção do Sul, encontrava-se a aldeia do Cacique Tibiriçá nas cercanias do atual Fórum João Mendes Junior, um pouco abaixo, perto do Caminho do Mar (Rua da Glória), muito usado pelos Tupiniquins para subir a Serra assim como também pelos Guaianases quando iam no inverno pescar nas praias do Litoral de Santos e São Vicente; época em que os grandes cardumes fugindo das águas frias em alto mar, procuravam refúgio se aproximando das águas mais quentes da costa. Era nesta época que os Índios pescavam e moqueavam o peixe (assavam na grelha chamada de moquém), triturando o alimento com a farinha de mandioca para que esta mistura se conservasse por muito tempo, trazendo depois este mantimento para o Planalto. A vista em direção ao sul, era de densa floresta, até as colinas onde hoje se situa a Avenida Paulista. Bem mais ao sul pouco se conhecia: teria havido um lago bem grande (no local do atual Parque do Ibirapuera), circundado por muito brejo (Jardim América, Jardim Europa, Jardim Paulista) até se chegar ao Rio Pinheiros e à aldeia do Ibirapuera propriamente dita (pau ou árvore podre), localizada perto da região de Santo Amaro e nas cercanias deste rio, ao Sul. Para o Sudoeste, muitos morros íngremes (região da Av. Paulsita) e logo abaixo ainda muito brejo havia, até se chegar à uma outra aldeia, localizada em Pinheiros, próxima deste rio onde nas margens haviam muitas capivaras, jacarés e caça abundante.

Na direção do Leste, havia uma grande várzea, formada pelo Rio Tamanduateí (em Tupi) ou Rio dos Tamanduás, o qual na época das cheias, formando lagoas, deixava o peixe aprisionado, dando assim, origem ao nome do local: Piratininga (paraty/piraty: peixe branco; ningá: seco; pronuncia correta: piratiningá). Era o local de partida para o Vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro, que sequer havia sido fundado, onde naquele local se encontrava a França Antártica de Villegagnon, com o Forte de Coligny instalado na Ilha que hoje está ligada ao continente, ao lado do Aeroporto Santos Dumont. Para o Oeste, ultrapassando-se o temido vale do anhangá (Anhangabaú), chegava-se até o local que bem mais tarde ficou conhecido como Largo dos Curros (Praça da República) e mais um pouco para frente à uma aldeia, no atual Largo do Arouche.

Índios Locais

Os índios habitantes do local eram os Guaianás (ou Gaianases), da mesma família Tupi, liderados pelo Cacique Tibiriçá e por seu irmão, Caiubi, amigos dos Portugueses. João Ramalho, náufrago ou degredado que Martim Afonso de Souza já encontrou morando entre os índios quando chegou à São Vicente, havia desposado a filha de Tibiriçá, a Índia Bartira (Potira), estabelecendo assim relações de amizade não só com os Guaianases mas como também com os Tupiniquins da Costa de São Vicente. Os índios Guianás ao que tudo indica, não praticavam o canibalismo ritualístico como seus irmãos Tupinambás no Litoral Norte e Tupiniquins no Litoral Sul de São Paulo (de São Vicente e Itanhaém até Cananéia). Ramalho e Bartira geraram muito filhos mamelucos, os quais são a origem dos primeiros Paulistas.

Uma maquete em gesso de 1955, obra de Laurindo Galante, da Escola Técnica Getúlio Vargas (atual FGV), retrata com perfeição como teria sido a Colina Histórica de Piratininga no Século XVI, mostrando as indicações dos locais atuais. Venha conferir, portanto, a São Paulo daquela época em nossas fotos exclusivas e descubra um mundo de novidades!

São Paulo no Século 16 - clique nas imagens para ampliar

Atualmente, o local onde foi fundada São Paulo, o Pateo do Collegio, ainda é administrado pelos Jesuítas, possuindo um conjunto de mostras de grande interesse como o museu, a maquete de São Paulo acima exibida nas fotos exclusivas, os jardins internos, a cripta com mostras de arte e a capela, com o anexo da Sala do Oratório do Beato José de Anchieta, onde são exibidas relíquias como o manto, totalmente restaurado e o fêmur, que teria sido do sacerdote.

Pateo do Collegio

Foi neste local, em Piratininga, que foi erguido o Colégio de São Paulo de Piratininga, com sua Capela, fundando-se assim a São Paulo de Piratininga a 25 de janeiro de 1554, inclusive com a transferência da então Câmara Municipal de Santo André da Borda do Campo para junto do Pateo do Collegio. Foi nesta data celebrada uma primeira missa pelo Padre Paiva na presença de José de Anchieta, Manoel da Nóbrega, João Ramalo e sua esposa Bartira (Portira) e dos Índios Tibiriçá (genro de Ramalho e pai de Bartira) e de Caiubí. A conclusão das obras se deu 2 anos depois, em data de primeiro de novembro de 1556.

Findos os trabalhos de catequese séculos mais tarde, o Pateo do Collegio passou por diversas transformações dando lugar à diferentes instituições. Em 1765, como foram confiscados os bens dos padres (expulsão dos Jesuítas pelo Marques de Pombal - Episódio das Missões no Sul do País), o governo da Província se instalou no convento dos Jesuítas. O Pátio passou a se chamar Largo do Palácio. Nesse prédio foi instalado o primeiro teatro de São Paulo, o Ópera, com 350 lugares. Ainda, em 1882, parte do Colégio foi demolida e passou a ser o Palácio do Governo. Antes, porém, serviu de residência de bispo e governador, em 1759 e 1765 respectivamente e também foi casa de fundição. Em 1954, ano do IV Centenário da Fundação de São Paulo, finalmente, a propriedade passou a pertencer à antiga Companhia de Jesus (representada pela Sociedade Brasileira de Educação), que construiu uma réplica do antigo prédio. Uma das maiores relíquias do Pateo, e talvez da cidade, são o Fêmur do Padre Anchieta e a parede de taipa, original, da época da sua construção. A taipa utilizada era feita de barro, terra úmida, folhas, ervas e até sangue de boi e estrume, que eram misturados e socados num pilão. Depois todo esse material era colocado em duas pranchas verticais para que a mistura secasse.

História das Relíquias do Padre José de Anchieta

Em 1760, após a expulsão dos Jesuítas do Brasil, o Marquês de Pombal, em nome do Rei Dom José I, solicitou que a Superior Companhia  de Jesus na Bahia enviasse para Portugal um baú de jacarandá contendo ossos humanos e um manto de tecido castanho claro que teriam sido do Beato José de Anchieta. Em 1964, o baú foi encontrado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, fato amplamente divulgado e discutido na imprensa portuguesa da época. Solicitado a Portugal desde 1971, o Governo de São Paulo conseguiu finalmente o retorno do baú com os ossos e o manto no final da década de 80. Este passou a ficar exposto na Capela de Anchieta, no Pateo do Collegio. Inteiramente restaurado, o manto que pertenceu a Anchieta deverá passar a integrar este Oratório, espaço dedicado ao culto ao Beato na Capela do Pateo do Collegio (grafia original).

A Relíquia do Beato José de Anchieta: em 1609, doze anos após a morte de Anchieta, seus restos mortais foram exumados da Igreja de Santiago, em Vitória do Espírito Santo e transladados para a Catedral de Salvador na Bahia. Por ordem do Superior Geral da Companhia de Jesus, o fêmur aqui exposto foi transferido em 1610 para Roma onde permaneceu durante três séculos e meio. Após a instituição do "Dia de Anchieta", em 1965, a ser comemorado em todo o território nacional em 9 de junho, data do seu falecimento, foi providenciada a restituição da relíquia ao Brasil, destinada desde então a permanecer exposta à contemplação, no Pateo do Collegio, em São Paulo, de forma a exortar a devoção pelo Beato, que morreu abrasado pelo amor ao seu próximo e ao Brasil. Confira nas fotos abaixo!

Capela e Sala do Oratório - clique nas imagens para ampliar

Canonização de José de Anchieta

O processo de canonização de do Beato Padre José de Anchieta continua tramitando no Vaticano, embora a capela do Pateo do Collegio já exiba uma imagem monumental do Beato no altar, assim como a Catedral da Sé exibe uma imagem em gesso na nave central.

O papel de Anchieta tem sido revisto pela História do Brasil. Ele teria sido polêmico, devido a algumas declarações que teria externado sobre os indígenas, notadamente os Tupinambás, amigos do Franceses (fizeram amizade com os Franceses haja vista terem sofrido muito com a escravização promovida pelos perós - Portugueses). Contudo, já em Vitória, no atual Estado do Espírito Santo, onde morreu, teria ele declarado que se dava melhor com os índios do que com os Portugueses. Seu papel na História, assim como aquele do Padre Nóbrega, é importantíssimo, pois ambos foram os responsáveis pelas pazes com os Tupinambás e pelo desmantelamento da Confederação dos Tamoios, que ameaçava São Vicente e o empreendimento português no Brasil, preservando assim a unidade do Brasil em um só território, sob uma mesma língua e uma mesma fé. Lembramos que os abarés (padres), sempre lutaram pelos Índios e pela liberdade, como ainda ficou edivenciado bem mais tarde, no episodio das Missões Jesuíticas no Sul do Brasil, o que levou inclusive à expulsão dos Padres Jesuítas do Brasil por ordem do Marques de Pombal.

Note-se que caso a Confederação vingasse, São Vicente por certo teria sido destruída, assim como o Pateo do Collegio, é verdade, com a expulsão do invasor Português, mas por outro lado, prestigiando-se da mesma forma, outros invasores, só que nos caso os Franceses, amigos dos Tupinambás, o que teria talvez contado para que vingasse uma França Antártica protestante no Rio de Janeiro, dividindo assim, o território do Brasil.

Como Brasileiros, não devemos somente muita gratidão pelo nosso país, língua, território imenso, fé e caráter, a Portugal; devemos tudo isto e muito mais também à Igreja Católica e aos abarés (padres) que embrenhavam-se nos matos, catequizado e levando conhecimento a todos os Indígenas. E devemos muito também aos índios: a Cunhambebe, Aimberê, Pindobuçu e Coaquira por terem aceitado o Tratado de Paz de Iperoig; a Tibiriçá, Caiubi e tantos outros que ajudaram na mantença da São Paulo de Piratininga, assim como também aos bravos Bandeirantes Paulistas, os quais, com esforços imensos, mesmo que com muitíssimos erros, mas também com muitos acertos, demarcaram um grande território e fizeram do Brasil essa imensidão gigantesca que de fato se concretizou!

Agradecemos a gentil colaboração da Sra. Mariana Emiko Fuzissaki e à Administração, que autorizaram e permitiram as fotos do local.

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