Quem foi
Cunhambebe? Cunhambebe era o Chefe Supremo da Nação Tupinambá no
século 16. Esta nação se dividia em tribos que se
localizavam num território que ia desde o Rio
Juqueriquerê em Caraguatatuba, no Estado de São Paulo,
até o Cabo de São Tomé, depois de Cabo Frio, no Estado
do Rio de Janeiro, adentrando ainda pelo interior por
todo o Vale do Paraíba entre os Estados do Rio e São
Paulo.
Hercúleo e destemido, ele chefiava todas as
aldeias deste território. Ofendidos pelos Portugueses
que destruíam as famílias indígenas, escravizando muitos
para o trabalho nos engenhos de cana-de-açúcar, os
Índios Tupinambás criaram a chamada Confederação dos
Tamoios a qual possuía invejável poderio de guerra. Para
garantir sua liberdade, os Índios ainda se associaram
aos Franceses, os quais haviam fundado na baía da
Guanabara uma colônia antes mesmo da fundação do Rio de
Janeiro. Esta colônia, batizada de França Antártica,
ameaçava a hegemonia e integridade do empreendimento
Português e serviria de refúgio para os protestantes
fugidos das guerras de religião na Europa.
Devemos à Cunhambebe assim como
a Aimberê, Pidobuçú e
Coaquira, todos Chefes Tupinambás, Índios e Brasileiros
que eram, o acordo fomentado pelos Jesuítas e celebrado
com os Portugueses, que ficou conhecido como
Tratado de Paz de Iperoig, celebrado no local da nossa
muito querida e linda Cidade de Ubatuba, SP. Este tratado garantiu a unidade do Brasil
com uma só língua, uma só fé e um só território. Sem o
tratado de Paz, a Confederação dos Tamoios teria
provavelmente destruído São Vicente e hoje o Brasil,
entre o Rio e São Paulo, provavelmente teria um outro
país ou Departamento Francês e a história teria sido
outra.
Embora Cunhambebe fosse temido, ele morreu de peste depois da chegada dos
Franceses no Rio de Janeiro para a fundação da França
Antártica. Nossa história apresenta Cunhambebe genericamente como sendo uma única pessoa.
Contudo, na realidade, afirma o tupinólogo Capistrano de
Abreu terem havido dois Cunhambebes. O Pai era o famoso
guerreiro, temido por todos os Portugueses,
contemporâneo de Hans Staden e de André Thevet, escritor
da Cosmografia Universal. O filho, segundo estudiosos, também
chamado Cunhambebe, contemporâneo de Anchieta, foi quem
teria ajudado a celebrar o referido Tratado de Paz de Iperoig, garantindo o êxito do
empreendimento Português no Brasil. Pai ou Filho,
apresentado como uma única pessoa ou que de fato tenham
sido duas distintas, Cunhambebe sempre será o "verdadeiro herói do
Brasil". Hoje em dia, seu papel histórico está sendo revisto e
discutido para
que mereça o devido destaque dentre os vultos de nossa
História.
A história é
matéria curiosa, pois muitas vezes é tendenciosa, talvez como
nas guerras, em que sempre há determinadas verdades ou histórias
favorecendo este ou aquele lado. Cada história regional parece
ter sua própria verdade, mas uma história geral, sem tendências
ou ou bairrismos, por vezes aparece com isonomia, julgando e
imperando sobre as demais outras meias verdades tendenciosas. É
neste contexto que enfocamos a história e Cunhambebe, grande
Guerreiro e Chefe Tupinambá. Esquecido e legado à vala dos
indigentes, tido como aliado dos inimigos franceses, que os
portugueses entendiam terem invadido o Rio de Janeiro (que
sequer existia), na verdade
desafiou o colonizador português que "roubava" a terra que
de fato pertencia aos índios e que portanto já tinha dono. Como resposta ao
inimigo português que escravizada e destruía famílias inteiras,
usava o moquém onde assava e depois devorava os inimigos no
ritual Tupinambá, tendo comandado a Confederação dos Tamoios com
enorme poderio de guerra. Este é o verdadeiro herói
Brasileiros da
Terra Brasileira, e não um colonizador, seja ele um
padre, um português ou de qualquer outra nacionalidade estranha, pois como
Brasileiro,
Cunhambebe aceitou um acordo de
paz fomentado pelos abarés (padres) a mando dos portugueses. Infelizmente,
nos conta a história num episódio nebuloso, que ele acabou
sendo traído, pois que os portugueses ao final destruíram toda a
nação Tupinambá. Morreu no esquecimento. Hoje está sendo
redescoberto. Há alguns fatos ainda pouco conhecidos em sua
história o que tentamos esclarecer aqui. Adicionalmente,
infelizmente hoje em dia, índios Yanomami, instigados por
interesses estrangeiros, diferentemente de Cunhambebe que era
Brasileiro Índio, dizem-se Nação Yanomami e não Brasileiros,
querendo demarcar a Reserva Raposa Serra do Sol no Estado de
Roraima, colocando em risco a soberania Nacional e a
Indivisibilidade da Nação, com a demarcação de mais de 42% de
reserva em área de fronteira e que num futuro nebuloso, a ONU
poderia reconhecer aos Índios a conversão da reserva num
território a parte do Brasil, sob a tutela dos Estados Unidos.
Veja o vídeo de Orlando Vilas Boas Aqui, acerca do assunto e
depois veja a história maravilhosa do Brasileiro Cunhambebe.
"Venham Agora e Ajudem a Comer Nossos Inimigos"
índios
assando carne no moquém
clique na imagem
para ampliar
É verdade que
no século 16 o Brasil estava dividido entre perós (portugueses)
e mairs (franceses). É verdade que os padres Jesuítas (abarés)
eram amigos dos índios e que queriam o seu bem. É certo que Hans Staden naufragou em
Itanhaém. É verdade que devido aos ataques dos Tupinambás,
muitos Vicentinos se refugiaram na Vila de Itanhaém. É verdade
que Hans foi capturado em Bertioga e levado para Ubatuba. Não é
verdade que esta Ubatuba seja a atual cidade, mas sim uma aldeia
perto da Angra dos Reis de hoje em dia. É verdade que também
havia um local mais ao sul desta Ubatuba, também chamada pelo
mesmo nome Ubatuba (local da atual cidade), onde os índios se
reuniam com suas canoas antes de assaltos e guerras mais ao sul,
aos inimigos Tupiniquins e à Capitania de São Vicente. É verdade
que Cunhambebe era canibal. É verdade que Cunhambebe conheceu
Hans Staden. É verdade que André Thevet, viajante francês
visitando a França Antártica, descreveu Quoniambec, o qual
sempre fazia guerra a Morpião (região de São Vicente). Também é
verdade que Cunhambebe morrera de peste logo depois da chegada
de Villegaigonon no Rio de Janeiro, portanto, não poderia ser o
mesmo que o Padre Anchieta descreve quando de seu cativeiro em
Iperoig (esta sim, a atual cidade de Ubatuba) alguns anos bem mais
tarde. O Tupinólogo Capistrano de Abreu esclarece esta questão
afirmando terem havido dois Cunhambebes. O de Hans Staden e
Thévet, que morreu de peste no Rio e o de Anchieta, que quando
morrera, diz a lenda, sentido-se traído, teria amaldiçoado
Iperoig, a cidade atual de Ubatuba, no Estado de São Paulo.
"Che Reimbada Inde"
"Você é Meu Animal
Em Cativeiro"
Logo após a descoberta do Brasil em
1500 (que na realidade hoje se sabe, foi uma "tomada de posse"
visto que a terra já era conhecida), os portugueses tiveram que dominar e garantir a posse das
terras contra vários reinos europeus que naquele tempo se
expandiam descobrindo novas terras ou simplesmente tomando a
terra dos outros à força, fazendo depois acordos com a Coroa
para acomodar a convivência entre eles na Europa. Nessa época,
na posse, no domínio e nos acordos valia a lei do mais forte. Os
holandeses e os franceses eram os mais terríveis interessados em
tomar dos portugueses as terras descobertas. O Rei de França
costumava dizer que lhe mostrassem o testamento de Deus
dividindo a América entre Portugueses e Espanhóis, visto que ele
não aceitava a divisão dessas terra pelo Papa. Os espanhóis que
também foram grandes conquistadores lutavam para manter o outro
lado do vasto continente. Para dominar a zona costeira e
explorar o interior das terras descobertas, os portugueses
usavam os índios como escravos no trabalho e nas lutas,
capturados à força e muita brutalidade. E é aí que entra a
história de Cunhambebe.
centro: ídolo
maracá, oferendas dos lados
"Xe Anama Poepika
Ae!"
"Essa é a Minha
Vingança Pelo Homem Que os Seus Amigos Mataram"
Os índios eram
pacíficos com os visitantes (a despeito do fato de guerrearem
constantemente), não conheciam nada dos brancos, só conheciam a
natureza que lhes dava tudo de comer e de curar alguma doença do
mato, ferimentos ou comida mal digerida. Seus deuses eram as
forças da natureza. Não tinham armas de fogo nem facas e facões
porque não conheciam o metal, nem prisões. Os portugueses, para
usar seu trabalho escravo, impunham grande pavor, matando,
esfaqueando e prendendo com correntes de ferro os desobedientes.
Cansados de tanto sofrimento os índios começaram a se revoltar
atacando os invasores em suas aldeias, porém, poupando as
mulheres e crianças que para eles são criaturas sagradas.
"Jau Ware Sche!"
"Sou um Tigre, Isso
Está Gostoso!"
Diferente dos
portugueses que quando atacavam arrasavam tudo matando quem
estivesse pela frente. Caciques de diversas tribos, liderados
por Cunhambebe, (Koniam-bebê) homem de dois metros de altura
cujo nome vem de sua gagueira e fala arrastada, resolveram pôr
um fim a tantas injustiças e combinaram um grande ataque para
expulsar de vez aqueles homens brancos muito maus. Comandados
por Cunhambebe e pelos caciques Aymberê, Caoquira e Pindobossú
os índios eram muito numerosos. Os registros do Padre José de
Anchieta indicam a chegada de mais de duzentas canoas com mais
de vinte índios cada uma, além dos milhares que vinham por
terra, provenientes das tribos situadas nas planícies acima da
Serra do Mar. Se a batalha tivesse acontecido os portugueses
seriam arrasados e expulsos do litoral de São Paulo, e os
franceses, que dominavam o Rio de Janeiro e que se relacionavam
muito bem com os índios daquela região, teriam tomado a terra
brasileira das mãos da Coroa Portuguesa. A história seria outra.
Cunhambebe era o mais terrível dos índios Tamoios. Muito grande,
ele tinha uma força descomunal, uma coragem sem igual e uma
dureza e ferocidade incomuns. Gabava-se de ter comido centenas
de inimigos. O seu maior prazer era causar terror em seus
contrários. Nunca perdoou nenhum português. Conta-se que
preferia passar fome caso não tivesse um prisioneiro para o seu
banquete.
"Erejúpe?"
(Vieste?)
"Pá, ajú."
(Pois não, vim.)
"Te! Augé nipó."
(Eis aí, muito bem.)
"Iandé repiáka oú!"
(Veio nos
ver!)
Mas a batalha
não aconteceu. Os portugueses auxiliados pelos jesuítas que
tinham grande poder sobre a bondade na terra e suas recompensas
na eternidade conseguiram aplacar a ira dos chefes morubixabas
com promessas de castigos divinos e muitas ameaças do furor das
forças da natureza, que era a única coisa real que orientava as
ações e os pensamentos daqueles homens primitivos em seu estado
natural mais puro. É verdade que alguns índios duvidavam
daquelas palavras, mas seu temor era tanto que não ficaram senão
algumas memórias dessas dúvidas. Existe o registro de uma
reclamação do cacique Aymberê que foi tema de uns versos
escritos sobre aqueles tempos, que revela bem as dificuldades
dos índios com as coisas que lhes eram ditas pelos padres. Diz
um trecho do poema encontrado em velhos arquivos baseado nas
indagações de Aymberê ao padre José de Anchieta.
"Não
conhecem acaso os portugueses".
Essa pia doutrina que nos pregas?
Como, pois contra nós, em guerra assídua,
Sem medo de seu Deus, cruéis se mostraram?
Ou, só porque de DEUS ao Filho adoram,
Lhes foi dado o poder de perseguir-nos?
Mas se do céu as leis desobedecem
Que DEUS é esse então que os deixa impunes,
E vem por tua boca ameaçar-nos?
Os índios recolheram seus arcos, flechas e bordunas em atenção
às promessas de paz e convivência com os brancos garantidas
pelos jesuítas. Depois de uma viagem do cacique Cunhambebe a São
Vicente junto com o padre Manoel da Nóbrega para acerto dos
acordos de fim das hostilidades, foi combinada a Paz de Yperoig,
que serviu de argumento para o desânimo dos franceses que
queriam ver os portugueses expulsos.
Cunhambebe e seus guerreiros acreditaram na boa
fé dos acordos. Os vários chefes com seus homens se dispersaram,
se desarmaram e voltaram para suas tribos, e até hoje se
comemora a paz de Yperoig como uma data importante que garantiu
a unidade do Brasil contra as ameaças de divisão, graças ao
trabalho de catequese e união promovido por Anchieta, Nóbrega e
seus companheiros. Mas a história não comenta que logo depois de
terem se desarmado e se dispersado os índios foram massacrados
pelos rudes e estúpidos colonizadores portugueses interessados
no ouro, nas riquezas e nas terras descobertas.
Cunhambebe morreu doente, ferido no corpo e na alma,
envergonhado diante da humilhação a que levou seu povo por ter
acreditado na palavra dos brancos.
Sabendo da importância que os portugueses deram
àquela data, pouco antes de morrer o grande cacique lançou uma
maldição contra os invasores e seus descendentes dizendo que as
terras de Yperoig que eles tanto quiseram seriam as terras do
fracasso, que lá nada daria certo, tudo que se começasse não
chegaria ao fim. Grande entusiasmo no início e resultado
miserável no final. E assim tem sido a história de Ubatuba, seus
ciclos econômicos sempre interrompidos, seus negócios e
empreendimentos sempre fracassados.
A paz que uniu o Brasil deveria ser atribuída ao
martírio dos índios, da mesma forma que a independência do
Brasil é atribuída ao martírio de Tiradentes. Para manter viva a
homenagem, sempre deveriam ser lembrados Cunhambebe, Aymberê,
Coaquira e Pindobuçú...
O Cunhambebe que conheceu Hans Staden e André Thevet, o qual a
história nos ensina ter sido o Grande Cacique, como de fato foi,
teria morrido de peste na Guanabara (futuro Rio de Janeiro) logo
após a chegada de Villegaignon com os Franceses que tinham vindo
fundar no Brasil uma colônia a qual chamaram de França Antártica. André Thévet o
conhecera em 1553, numa das expedições francesas de contrabando
de pau-brasil e manutenção da França Antártica, apresentando-o em sua obra Singularidades da
França Antártica (Cosmografia Universal) como Quoniambec;
gigante, feroz e extremamente cruel.
Este Cunhambebe, mantinha alguns canhões em local
descrito como uma aldeia próxima à baía de Guanabara (provavelmente perto de
Angra), retirados do ataque a alguma
nau portuguesa, assim como mantinha uma vestimenta de cavaleiro
de Cristo, retirada também de algum navio. Já sabemos que
Cunhambebe morrera de peste logo depois da chegada dos franceses
de Villegaignon em 1555, portanto, o Cunhambebe que Anchieta
conheceria anos mais tarde, teria sido em tese um outro, filho do primeiro. Lembramos Hans Staden, que descreve que quando encontra Cunhambebe indaga
o seguinte: Mas
ainda está vivo? – o que não deixa de ser curioso. Isto se
passou em 1554. Teria sido este um indício de que Hans Staden
teria notícias da morte do Grande Chefe, caso em que este
Cunhambebe também teria sido aquele que conheceu Anchieta,
o filho do primeiro Cunhambebe? A história conta que a morte de
Cunhambebe pela peste ocorreu entre 1555/1560. Anchieta veio a conhecer
Cunhambebe (o filho ou o outro) apenas em 1563. Portanto, não
podiam ser a mesma pessoa. Por essas razões, a história mais aprofundada nos ensina que houveram ou que deve ter havido
dois Cunhambebes, como recorda Capistrano de Abreu em seus
comentários à obra de Jean de Léry (Viagem à Terra do Brasil). O
primeiro, lendário (exageros de Thevét) e com importância
histórica devido ao território que governava e pelos ataques que
comandava à Capitania de São Vicente, e que ainda,
teria mantido sob seu julgo Hans Staden, morrendo de peste logo
depois da chegada dos franceses de Villegaignon ao Rio. O
Segundo, o de Anchieta, também com importância
histórica ímpar pois parece ter acompanhado Nóbrega a São
Vicente nas negociações de paz com os portugueses enquanto
Anchieta era feito refém em Ubatuba. Aceitando as pazes,
Cunhambebe
garantiu a unidade da língua, fé e território brasileiro no
século 16.
Ninguém melhor do que Hans Staden, mercenário
Alemão raptado e mantido cativo pelos Índios Tupinambás, para descrever
com exatidão quem foi Cunhambebe, pois conheceu-o em pessoa:
"Alguns dias depois levaram-me à
aldeia de Ariro,
onde vivia o mais distinto de seus chefes, Cunhambebe. Quando
nos aproximamos das cabanas ouvi grande estardalhaço: eles
cantavam e tocavam seus instrumentos de sopro. Por fim, levou-me
ao lugar onde o seu chefe supremo estava sentado, bebendo com os
outros. Já fortemente embriagado pelo cauim, olharam-me de modo
sombrio e falaram: "Você veio como nosso inimigo?" Respondi:
"Vim, mas não sou inimigo." Então me deram de beber. Já ouvira
falar muito de Cunhambebe. Diziam tratar-se de um grande homem, mas também de
um grande tirano que gostava e comer carne humana. E, entre eles,
um tinha a aparência de ser o chefe. Dirigi-me a este, falando,
na sua língua, o tipo de coisas que gostam de ouvir: "Você é
Cunhambebe? Ainda está vivo?"- "Sim" , disse ele, "ainda estou
vivo."- "Ora", continuei a falar, "já ouvi muito falar de você,
e que é um homem cheio de virtudes." Nesse momento, ele ficou de
pé, andando na minha frente, todo orgulhosos. Tinha, como era
hábito entre eles, uma grande pedra verde metida no lábio. Além
disso, possuía em volta do pescoço, um colar de conchas brancas
do mar, que os selvagens usam como enfeite. O colar media no
mínimo quatro braças de comprimento. Por esse enfeite eu já
podia reconhecer que se tratava certamente de um dos selvagens
mais distintos. Então, o chefe recomeçou a perguntar o que os
portugueses diziam sobre ele e se não era verdade que o temiam.
Eu disse: "Sim, falam muito de você e principalmente das
expedições de guerra que sempre lidera contra eles. Mas agora
fortificaram Bertioga melhor". Ele retrucou que os aprisionaria
do mesmo modo como me aprisionara, sozinho na floresta. Em
seguida, afirmei: "Seus verdadeiros inimigos, os Tupiniquim,
estão aprontando 25 barcos para atacar a terra." Isso realmente
aconteceu depois.
Enquanto ele falava comigo, os outros ficavam em
volta prestando atenção na conversa. Fez muitas perguntas, mas
também falou muito sobre si mesmo. Gabava-se da quantidade de
portugueses e outros selvagens que já derrotara, todos seus
inimigos. Durante a conversação, como a beberagem terminou na
cabana, foram a uma para continuar a beber, por isso ele deu um
fim à entrevista.
Na outra cabana, começaram a fazer suas
brincadeiras comigo. Um filho do chefe atou-me as pernas juntas,
dando três voltas com a corda, e fui obrigado a atravessar
a cabana aos saltos. Diante da cena, eles riam e falavam em tom
brincalhão: "Lá vem a nossa comida pulando". Perguntei ao meu
Senhor se a intenção dele, ao levar-me até ali era me matar. Fez
que não, dizendo que era simplesmente o costume tratar assim os
escravos estrangeiros. Desataram-me novamente as pernas, fizeram
um círculo em volta de mim e tatearam a carne de meu corpo. um
deles disse que ficaria como couro da cabeça, o outro exigiu a
coxa. Depois tive que cantar-lhes algo e escolhi canções da
igreja. Queriam que eu explicasse aquilo na língua deles.
"Cantei coisas a respeito de meu Deus" (...)
(...) No dia seguinte,
alcançamos uma serra alta, que se chama Ocaraçu
(provavelmente o atual Cairuçu, conjunto de
serras e morros na região e Trindade, ao Sul, próxima à Cidade
de Paraty)
e não fica muito
afastada da terra dos Tupinambá. Ali prepararam o acampamento
para passarmos a noite. Fui à cabana de Cunhambebe e
perguntei-lhe o que pretendia fazer com os mamelucos. Respondeu
que iam ser comidos e me proibiu de falar-lhes. Estava muito
zangado; seria melhor que tivessem ficado em casa em vez de
partirem para a guerra junto com seus inimigos, pensava o chefe.
Pedi que apesar disso, poupasse suas vidas e os vendesse para
seus amigos. Ma sele determinou que os mamelucos iam ser
comidos.
Cunhambebe tinha diante de si
uma grande cesta cheia de carne humana. Naquele momento, ele
estava comendo a carne de um osso, que segurou defronte ao meu
nariz, enquanto perguntava se eu também queria um pedaço.
Respondi: "Mesmo um animal irracional raramente devora os seus
semelhantes, por que então um homem iria devorar os outros?" Deu
uma mordida e disse: "Jau ware sche - Sou um tigre, isso está
gostoso." Então deixei-o. (Cunhambebe referia-se a Onça).
Uyrá
(Pássaros)
Pirá
(Peixes)
Na mesma noite ele ordenou que
cada um devia trazer seu prisioneiro até um lugar em frente à
floresta, na beira do mar. Reuniram-se todos, formando um
círculo em torno dos prisioneiros. Estes foram obrigados a
cantar juntos, balançando as macarás, os ídolos, para fazer
barulho. Depois, todos os prisioneiros começaram a falar, um
após o outro. Sem o menor medo, eles disseram: "Sim, como convém
a homens corajosos, partimos com o fim de aprisionar e comer
vocês, nossos inimigos. Agora conseguiram a vitória e nos
aprisionaram, mas isso pouco nos importa. homens valorosos e
corajosos morrem na terra de seus inimigos. a nossa terra também
é grande e os nossos vão se vingar de vocês". "Sim", responderam
os outros, "vocês já comeram muitos de nós, é disso que queremos
vingança". Quando os discursos tinham chegado ao fim, cada um
conduziu seus prisioneiros de volta para o refúgio.
No terceiro dia, chegamos de novo no território dos Tupinambá,
que levaram seus prisioneiros para as aldeias onde moravam. Os
de Ubatuba tinham aprisionado oito selvagens e três mamelucos
com vida. Esses três eram Diogo e seu irmão, mais um outro de
nome Antônio, capturado pelo filho me meu Senhor. Outros dois
mamelucos, cristãos também, foram trazidos para casa já assados.
Nossa viagem durou ao todo onze dias. (...)
Cunhambebe, pai ou filho, seriam naturais de
aldeia próxima a Angra dos Reis. Thevét menciona como ele fazia
guerra à Morpião (São Vicente). Como já mencionado, o Cunhambebe que conheceu
Anchieta (filho do primeiro), segundo a lenda, morrera em
Ubatuba amaldiçoando o local pois sentiu ter sido traído pelos
abarés. É que após terem sido desarmados os índios e dispersa a
Confederação dos Tamoios, atacaram os portugueses novamente ao
mesmo tempo que os índios do Rio ajudavam seus amigos franceses
contra Estácio de Sá que ali estava para expulsa-los. Vitoriosos
os Portugueses no Rio, destruíram toda aquela nação, primeiro a
aldeias em torno da Baía da Guanabara, depois o massacre em Cabo
Frio, com o incêndio de todas as aldeias e a matança dos índios
a fio de espada. Alguns descendentes (mulheres e crianças) mais
tarde teriam sido assimilados e evangelizados, outros teriam
buscado refúgio na Serra do Mar onde viveram livres, miseráveis
e sempre perseguidos (segundo Washington de Oliveira, seu
filhinho, de Ubatuba). Os sobreviventes de Cabo Frio foram
levados para perto do atual Rio de Janeiro numa aldeia de índios
cristãos. Aqueles guerreiros intrépidos e hercúleos, devem ter
sido reduzidos a criaturas passivas, vestidos com um lençol e
carregando um missal debaixo do braço. A ferocidade, portanto,
vê-se não era de nenhum índio canibal, mas do colonizador
Português, que destruiu uma cultura a troco do lucro e da
ganância, mesmo que
para tanto fosse preciso enganar os padres acerca de sua real
intenção e utilizá-los nas suas negociatas. Contudo, com todos
os defeitos ou não esta colonização, no final, restou só um Brasil,
com uma só língua e fé, como deveria
ser, porém, os pobres índios, como crianças instrumentadas por
interesses estrangeiros, sucumbiram às custas do capricho
europeu, que consigo além da fé, trouxe a epidemia de varíola no
Rio de Janeiro, a qual matou Cunhambebe, aniquilando também acerca de 30
mil índios por volta de 1555. Já no início do século 17, não
havia mais nenhum índio Tupinambá na região Sudeste do
Brasil.
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