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Cunhambebe

   
 

Quem foi Cunhambebe? Cunhambebe era o Chefe Supremo da Nação Tupinambá no século 16. Esta nação se dividia em tribos que se localizavam num território que ia desde o Rio Juqueriquerê em Caraguatatuba, no Estado de São Paulo, até o Cabo de São Tomé, depois de Cabo Frio, no Estado do Rio de Janeiro, adentrando ainda pelo interior por todo o Vale do Paraíba entre os Estados do Rio e São Paulo.

Hercúleo e destemido, ele chefiava todas as aldeias deste território. Ofendidos pelos Portugueses que destruíam as famílias indígenas, escravizando muitos para o trabalho nos engenhos de cana-de-açúcar, os Índios Tupinambás criaram a chamada Confederação dos Tamoios a qual possuía invejável poderio de guerra. Para garantir sua liberdade, os Índios ainda se associaram aos Franceses, os quais haviam fundado na baía da Guanabara uma colônia antes mesmo da fundação do Rio de Janeiro. Esta colônia, batizada de França Antártica, ameaçava a hegemonia e integridade do empreendimento Português e serviria de refúgio para os protestantes fugidos das guerras de religião na Europa.

Devemos à Cunhambebe assim como a Aimberê, Pidobuçú e Coaquira, todos Chefes Tupinambás, Índios e Brasileiros que eram, o acordo fomentado pelos Jesuítas e celebrado com os Portugueses, que ficou conhecido como Tratado de Paz de Iperoig, celebrado no local da nossa muito querida e linda Cidade de Ubatuba, SP. Este tratado garantiu a unidade do Brasil com uma só língua, uma só fé e um só território. Sem o tratado de Paz, a Confederação dos Tamoios teria provavelmente destruído São Vicente e hoje o Brasil, entre o Rio e São Paulo, provavelmente teria um outro país ou Departamento Francês e a história teria sido outra.

Embora Cunhambebe fosse temido, ele morreu de peste depois da chegada dos Franceses no Rio de Janeiro para a fundação da França Antártica. Nossa história apresenta Cunhambebe genericamente como sendo uma única pessoa. Contudo, na realidade, afirma o tupinólogo Capistrano de Abreu terem havido dois Cunhambebes. O Pai era o famoso guerreiro, temido por todos os Portugueses, contemporâneo de Hans Staden e de André Thevet, escritor da Cosmografia Universal. O filho, segundo estudiosos, também chamado Cunhambebe, contemporâneo de Anchieta, foi quem teria ajudado a celebrar o referido Tratado de Paz de Iperoig, garantindo o êxito do empreendimento Português no Brasil. Pai ou Filho, apresentado como uma única pessoa ou que de fato tenham sido duas distintas, Cunhambebe sempre será o "verdadeiro herói do Brasil". Hoje em dia, seu papel histórico está sendo revisto e discutido para que mereça o devido destaque dentre os vultos de nossa História.

A Importância de Cunhambebe

A história é matéria curiosa, pois muitas vezes é tendenciosa, talvez como nas guerras, em que sempre há determinadas verdades ou histórias favorecendo este ou aquele lado. Cada história regional parece ter sua própria verdade, mas uma história geral, sem tendências ou ou bairrismos, por vezes aparece com isonomia, julgando e imperando sobre as demais outras meias verdades tendenciosas. É neste contexto que enfocamos a história e Cunhambebe, grande Guerreiro e Chefe Tupinambá. Esquecido e legado à vala dos indigentes, tido como aliado dos inimigos franceses, que os portugueses entendiam terem invadido o Rio de Janeiro (que sequer existia), na verdade desafiou o colonizador português que "roubava" a terra que de fato pertencia aos índios e que portanto já tinha dono. Como resposta ao inimigo português que escravizada e destruía famílias inteiras, usava o moquém onde assava e depois devorava os inimigos no ritual Tupinambá, tendo comandado a Confederação dos Tamoios com enorme poderio de guerra. Este é o verdadeiro herói Brasileiros da Terra Brasileira, e não um colonizador, seja ele um padre, um português ou de qualquer outra nacionalidade estranha, pois como Brasileiro, Cunhambebe aceitou um acordo de paz fomentado pelos abarés (padres) a mando dos portugueses. Infelizmente, nos conta a história num episódio nebuloso, que ele acabou sendo traído, pois que os portugueses ao final destruíram toda a nação Tupinambá. Morreu no esquecimento. Hoje está sendo redescoberto. Há alguns fatos ainda pouco conhecidos em sua história o que tentamos esclarecer aqui. Adicionalmente, infelizmente hoje em dia, índios Yanomami, instigados por interesses estrangeiros, diferentemente de Cunhambebe que era Brasileiro Índio, dizem-se Nação Yanomami e não Brasileiros, querendo demarcar a Reserva Raposa Serra do Sol no Estado de Roraima, colocando em risco a soberania Nacional e a Indivisibilidade da Nação, com a demarcação de mais de 42% de reserva em área de fronteira e que num futuro nebuloso, a ONU poderia reconhecer aos Índios a conversão da reserva num território a parte do Brasil, sob a tutela dos Estados Unidos. Veja o vídeo de Orlando Vilas Boas Aqui, acerca do assunto e depois veja a história maravilhosa do Brasileiro Cunhambebe.

"Venham Agora e Ajudem a Comer Nossos Inimigos"

   

   
     

 

índios assando carne no moquém

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É verdade que no século 16 o Brasil estava dividido entre perós (portugueses) e mairs (franceses). É verdade que os padres Jesuítas (abarés) eram amigos dos índios e que queriam o seu bem. É certo que Hans Staden naufragou em Itanhaém. É verdade que devido aos ataques dos Tupinambás, muitos Vicentinos se refugiaram na Vila de Itanhaém. É verdade que Hans foi capturado em Bertioga e levado para Ubatuba. Não é verdade que esta Ubatuba seja a atual cidade, mas sim uma aldeia perto da Angra dos Reis de hoje em dia. É verdade que também havia um local mais ao sul desta Ubatuba, também chamada pelo mesmo nome Ubatuba (local da atual cidade), onde os índios se reuniam com suas canoas antes de assaltos e guerras mais ao sul, aos inimigos Tupiniquins e à Capitania de São Vicente. É verdade que Cunhambebe era canibal. É verdade que Cunhambebe conheceu Hans Staden. É verdade que André Thevet, viajante francês visitando a França Antártica, descreveu Quoniambec, o qual sempre fazia guerra a Morpião (região de São Vicente). Também é verdade que Cunhambebe morrera de peste logo depois da chegada de Villegaigonon no Rio de Janeiro, portanto, não poderia ser o mesmo que o Padre Anchieta descreve quando de seu cativeiro em Iperoig (esta sim, a atual cidade de Ubatuba) alguns anos bem mais tarde. O Tupinólogo Capistrano de Abreu esclarece esta questão afirmando terem havido dois Cunhambebes. O de Hans Staden e Thévet, que morreu de peste no Rio e o de Anchieta, que quando morrera, diz a lenda, sentido-se traído, teria amaldiçoado Iperoig, a cidade atual de Ubatuba, no Estado de São Paulo.

"Che Reimbada Inde"

"Você é Meu Animal Em Cativeiro"

Logo após a descoberta do Brasil em 1500 (que na realidade hoje se sabe, foi uma "tomada de posse" visto que a terra já era conhecida), os portugueses tiveram que dominar e garantir a posse das terras contra vários reinos europeus que naquele tempo se expandiam descobrindo novas terras ou simplesmente tomando a terra dos outros à força, fazendo depois acordos com a Coroa para acomodar a convivência entre eles na Europa. Nessa época, na posse, no domínio e nos acordos valia a lei do mais forte. Os holandeses e os franceses eram os mais terríveis interessados em tomar dos portugueses as terras descobertas. O Rei de França costumava dizer que lhe mostrassem o testamento de Deus dividindo a América entre Portugueses e Espanhóis, visto que ele não aceitava a divisão dessas terra pelo Papa. Os espanhóis que também foram grandes conquistadores lutavam para manter o outro lado do vasto continente. Para dominar a zona costeira e explorar o interior das terras descobertas, os portugueses usavam os índios como escravos no trabalho e nas lutas, capturados à força e muita brutalidade. E é aí que entra a história de Cunhambebe.

centro: ídolo maracá, oferendas dos lados

"Xe Anama Poepika Ae!"

"Essa é a Minha Vingança Pelo Homem Que os Seus Amigos Mataram"

Os índios eram pacíficos com os visitantes (a despeito do fato de guerrearem constantemente), não conheciam nada dos brancos, só conheciam a natureza que lhes dava tudo de comer e de curar alguma doença do mato, ferimentos ou comida mal digerida. Seus deuses eram as forças da natureza. Não tinham armas de fogo nem facas e facões porque não conheciam o metal, nem prisões. Os portugueses, para usar seu trabalho escravo, impunham grande pavor, matando, esfaqueando e prendendo com correntes de ferro os desobedientes. Cansados de tanto sofrimento os índios começaram a se revoltar atacando os invasores em suas aldeias, porém, poupando as mulheres e crianças que para eles são criaturas sagradas.

"Jau Ware Sche!"

"Sou um Tigre, Isso Está Gostoso!"

Diferente dos portugueses que quando atacavam arrasavam tudo matando quem estivesse pela frente. Caciques de diversas tribos, liderados por Cunhambebe, (Koniam-bebê) homem de dois metros de altura cujo nome vem de sua gagueira e fala arrastada, resolveram pôr um fim a tantas injustiças e combinaram um grande ataque para expulsar de vez aqueles homens brancos muito maus. Comandados por Cunhambebe e pelos caciques Aymberê, Caoquira e Pindobossú os índios eram muito numerosos. Os registros do Padre José de Anchieta indicam a chegada de mais de duzentas canoas com mais de vinte índios cada uma, além dos milhares que vinham por terra, provenientes das tribos situadas nas planícies acima da Serra do Mar. Se a batalha tivesse acontecido os portugueses seriam arrasados e expulsos do litoral de São Paulo, e os franceses, que dominavam o Rio de Janeiro e que se relacionavam muito bem com os índios daquela região, teriam tomado a terra brasileira das mãos da Coroa Portuguesa. A história seria outra. Cunhambebe era o mais terrível dos índios Tamoios. Muito grande, ele tinha uma força descomunal, uma coragem sem igual e uma dureza e ferocidade incomuns. Gabava-se de ter comido centenas de inimigos. O seu maior prazer era causar terror em seus contrários. Nunca perdoou nenhum português. Conta-se que preferia passar fome caso não tivesse um prisioneiro para o seu banquete.

"Erejúpe?"

(Vieste?)

"Pá, ajú."

(Pois não, vim.)

"Te! Augé nipó."

(Eis aí, muito bem.)

"Iandé repiáka oú!"

(Veio  nos ver!)

Mas a batalha não aconteceu. Os portugueses auxiliados pelos jesuítas que tinham grande poder sobre a bondade na terra e suas recompensas na eternidade conseguiram aplacar a ira dos chefes morubixabas com promessas de castigos divinos e muitas ameaças do furor das forças da natureza, que era a única coisa real que orientava as ações e os pensamentos daqueles homens primitivos em seu estado natural mais puro. É verdade que alguns índios duvidavam daquelas palavras, mas seu temor era tanto que não ficaram senão algumas memórias dessas dúvidas. Existe o registro de uma reclamação do cacique Aymberê que foi tema de uns versos escritos sobre aqueles tempos, que revela bem as dificuldades dos índios com as coisas que lhes eram ditas pelos padres. Diz um trecho do poema encontrado em velhos arquivos baseado nas indagações de Aymberê ao padre José de Anchieta.

"Não conhecem acaso os portugueses".
Essa pia doutrina que nos pregas?
Como, pois contra nós, em guerra assídua,
Sem medo de seu Deus, cruéis se mostraram?
Ou, só porque de DEUS ao Filho adoram,
Lhes foi dado o poder de perseguir-nos?
Mas se do céu as leis desobedecem
Que DEUS é esse então que os deixa impunes,
E vem por tua boca ameaçar-nos?

Os índios recolheram seus arcos, flechas e bordunas em atenção às promessas de paz e convivência com os brancos garantidas pelos jesuítas. Depois de uma viagem do cacique Cunhambebe a São Vicente junto com o padre Manoel da Nóbrega para acerto dos acordos de fim das hostilidades, foi combinada a Paz de Yperoig, que serviu de argumento para o desânimo dos franceses que queriam ver os portugueses expulsos.

 

Cunhambebe e seus guerreiros acreditaram na boa fé dos acordos. Os vários chefes com seus homens se dispersaram, se desarmaram e voltaram para suas tribos, e até hoje se comemora a paz de Yperoig como uma data importante que garantiu a unidade do Brasil contra as ameaças de divisão, graças ao trabalho de catequese e união promovido por Anchieta, Nóbrega e seus companheiros. Mas a história não comenta que logo depois de terem se desarmado e se dispersado os índios foram massacrados pelos rudes e estúpidos colonizadores portugueses interessados no ouro, nas riquezas e nas terras descobertas. Cunhambebe morreu doente, ferido no corpo e na alma, envergonhado diante da humilhação a que levou seu povo por ter acreditado na palavra dos brancos.

 

Sabendo da importância que os portugueses deram àquela data, pouco antes de morrer o grande cacique lançou uma maldição contra os invasores e seus descendentes dizendo que as terras de Yperoig que eles tanto quiseram seriam as terras do fracasso, que lá nada daria certo, tudo que se começasse não chegaria ao fim. Grande entusiasmo no início e resultado miserável no final. E assim tem sido a história de Ubatuba, seus ciclos econômicos sempre interrompidos, seus negócios e empreendimentos sempre fracassados.

 

A paz que uniu o Brasil deveria ser atribuída ao martírio dos índios, da mesma forma que a independência do Brasil é atribuída ao martírio de Tiradentes. Para manter viva a homenagem, sempre deveriam ser lembrados Cunhambebe, Aymberê, Coaquira e Pindobuçú...


Cunhambebe: Pai e Filho?


O Cunhambebe que conheceu Hans Staden e André Thevet, o qual a história nos ensina ter sido o Grande Cacique, como de fato foi, teria morrido de peste na Guanabara (futuro Rio de Janeiro) logo após a chegada de Villegaignon com os Franceses que tinham vindo fundar no Brasil uma colônia a qual chamaram de França Antártica. André Thévet o conhecera em 1553, numa das expedições francesas de contrabando de pau-brasil e manutenção da França Antártica, apresentando-o em sua obra Singularidades da França Antártica (Cosmografia Universal) como Quoniambec; gigante, feroz e extremamente cruel.

 

Este Cunhambebe, mantinha alguns canhões em local descrito como uma aldeia próxima à baía de Guanabara (provavelmente perto de Angra), retirados do ataque a alguma nau portuguesa, assim como mantinha uma vestimenta de cavaleiro de Cristo, retirada também de algum navio. Já sabemos que Cunhambebe morrera de peste logo depois da chegada dos franceses de Villegaignon em 1555, portanto, o Cunhambebe que Anchieta conheceria anos mais tarde, teria sido em tese um outro, filho do primeiro. Lembramos Hans Staden, que descreve que quando encontra Cunhambebe indaga o seguinte: Mas ainda está vivo? – o que não deixa de ser curioso. Isto se passou em 1554. Teria sido este um indício de que Hans Staden teria notícias da morte do Grande Chefe, caso em que este Cunhambebe também teria sido aquele que conheceu Anchieta, o filho do primeiro Cunhambebe? A história conta que a morte de Cunhambebe pela peste ocorreu entre 1555/1560. Anchieta veio a conhecer Cunhambebe (o filho ou o outro) apenas em 1563. Portanto, não podiam ser a mesma pessoa. Por essas razões, a história mais aprofundada nos ensina que houveram ou que deve ter havido dois Cunhambebes, como recorda Capistrano de Abreu em seus comentários à obra de Jean de Léry (Viagem à Terra do Brasil). O primeiro, lendário (exageros de Thevét) e com importância histórica devido ao território que governava e pelos ataques que comandava à Capitania de São Vicente, e que ainda, teria mantido sob seu julgo Hans Staden, morrendo de peste logo depois da chegada dos franceses de Villegaignon ao Rio. O Segundo, o de Anchieta, também com importância histórica ímpar pois parece ter acompanhado Nóbrega a São Vicente nas negociações de paz com os portugueses enquanto Anchieta era feito refém em Ubatuba. Aceitando as pazes, Cunhambebe garantiu a unidade da língua, fé e território brasileiro no século 16.

 

Como era o Cunhambebe

 

Ninguém melhor do que Hans Staden, mercenário Alemão raptado e mantido cativo pelos Índios Tupinambás, para descrever com exatidão quem foi Cunhambebe, pois conheceu-o em pessoa: "Alguns dias depois levaram-me à aldeia de Ariro, onde vivia o mais distinto de seus chefes, Cunhambebe. Quando nos aproximamos das cabanas ouvi grande estardalhaço: eles cantavam e tocavam seus instrumentos de sopro. Por fim, levou-me ao lugar onde o seu chefe supremo estava sentado, bebendo com os outros. Já fortemente embriagado pelo cauim, olharam-me de modo sombrio e falaram: "Você veio como nosso inimigo?" Respondi: "Vim, mas não sou inimigo." Então me deram de beber. Já ouvira falar muito de Cunhambebe. Diziam tratar-se de um grande homem, mas também de um grande tirano que gostava e comer carne humana. E, entre eles, um tinha a aparência de ser o chefe. Dirigi-me a este, falando, na sua língua, o tipo de coisas que gostam de ouvir: "Você é Cunhambebe? Ainda está vivo?"- "Sim" , disse ele, "ainda estou vivo."- "Ora", continuei a falar, "já ouvi muito falar de você, e que é um homem cheio de virtudes." Nesse momento, ele ficou de pé, andando na minha frente, todo orgulhosos. Tinha, como era hábito entre eles, uma grande pedra verde metida no lábio. Além disso, possuía em volta do pescoço, um colar de conchas brancas do mar, que os selvagens usam como enfeite. O colar media no mínimo quatro braças de comprimento. Por esse enfeite eu já podia reconhecer que se tratava certamente de um dos selvagens mais distintos. Então, o chefe recomeçou a perguntar o que os portugueses diziam sobre ele e se não era verdade que o temiam. Eu disse: "Sim, falam muito de você e principalmente das expedições de guerra que sempre lidera contra eles. Mas agora fortificaram Bertioga melhor". Ele retrucou que os aprisionaria do mesmo modo como me aprisionara, sozinho na floresta. Em seguida, afirmei: "Seus verdadeiros inimigos, os Tupiniquim, estão aprontando 25 barcos para atacar a terra." Isso realmente aconteceu depois.

 

Enquanto ele falava comigo, os outros ficavam em volta prestando atenção na conversa. Fez muitas perguntas, mas também falou muito sobre si mesmo. Gabava-se da quantidade de portugueses e outros selvagens que já derrotara, todos seus inimigos. Durante a conversação, como a beberagem terminou na cabana, foram a uma para continuar a beber, por isso ele deu um fim à entrevista.

 

Na outra cabana, começaram a fazer suas brincadeiras comigo. Um filho do chefe atou-me as pernas juntas, dando três voltas com  a corda, e fui obrigado a atravessar a cabana aos saltos. Diante da cena, eles riam e falavam em tom brincalhão: "Lá vem a nossa comida pulando". Perguntei ao meu Senhor se a intenção dele, ao levar-me até ali era me matar. Fez que não, dizendo que era simplesmente o costume tratar assim os escravos estrangeiros. Desataram-me novamente as pernas, fizeram um círculo em volta de mim e tatearam a carne de meu corpo. um deles disse que ficaria como couro da cabeça, o outro exigiu a coxa. Depois tive que cantar-lhes algo e escolhi canções da igreja. Queriam que eu explicasse aquilo na língua deles. "Cantei coisas a respeito de meu Deus" (...)

 

(...) No dia seguinte, alcançamos uma serra alta, que se chama Ocaraçu (provavelmente o atual Cairuçu, conjunto de serras e morros na região e Trindade, ao Sul, próxima à Cidade de Paraty) e não fica muito afastada da terra dos Tupinambá. Ali prepararam o acampamento para passarmos a noite. Fui à cabana de Cunhambebe e perguntei-lhe o que pretendia fazer com os mamelucos. Respondeu que iam ser comidos e me proibiu de falar-lhes. Estava muito zangado; seria melhor que tivessem ficado em casa em vez de partirem para a guerra junto com seus inimigos, pensava o chefe. Pedi que apesar disso, poupasse suas vidas e os vendesse para seus amigos. Ma sele determinou que os mamelucos iam ser comidos.

 

Cunhambebe tinha diante de si uma grande cesta cheia de carne humana. Naquele momento, ele estava comendo a carne de um osso, que segurou defronte ao meu nariz, enquanto perguntava se eu também queria um pedaço. Respondi: "Mesmo um animal irracional raramente devora os seus semelhantes, por que então um homem iria devorar os outros?" Deu uma mordida e disse: "Jau ware sche - Sou um tigre, isso está gostoso." Então deixei-o. (Cunhambebe referia-se a Onça).

Uyrá

(Pássaros)

Pirá

(Peixes)

Na mesma noite ele ordenou que cada um devia trazer seu prisioneiro até um lugar em frente à floresta, na beira do mar. Reuniram-se todos, formando um círculo em torno dos prisioneiros. Estes foram obrigados a cantar juntos, balançando as macarás, os ídolos, para fazer barulho. Depois, todos os prisioneiros começaram a falar, um após o outro. Sem o menor medo, eles disseram: "Sim, como convém a homens corajosos, partimos com o fim de aprisionar e comer vocês, nossos inimigos. Agora conseguiram a vitória e nos aprisionaram, mas isso pouco nos importa. homens valorosos e corajosos morrem na terra de seus inimigos. a nossa terra também é grande e os nossos vão se vingar de vocês". "Sim", responderam os outros, "vocês já comeram muitos de nós, é disso que queremos vingança". Quando os discursos tinham chegado ao fim, cada um conduziu seus prisioneiros de volta para o refúgio.

No terceiro dia, chegamos de novo no território dos Tupinambá, que levaram seus prisioneiros para as aldeias onde moravam. Os de Ubatuba tinham aprisionado oito selvagens e três mamelucos com vida. Esses três eram Diogo e seu irmão, mais um outro de nome Antônio, capturado pelo filho me meu Senhor. Outros dois mamelucos, cristãos também, foram trazidos para casa já assados. Nossa viagem durou ao todo onze dias. (...)

Cunhambebe, pai ou filho, seriam naturais de aldeia próxima a Angra dos Reis. Thevét menciona como ele fazia guerra à Morpião (São Vicente). Como já mencionado, o Cunhambebe que conheceu Anchieta (filho do primeiro), segundo a lenda, morrera em Ubatuba amaldiçoando o local pois sentiu ter sido traído pelos abarés. É que após terem sido desarmados os índios e dispersa a Confederação dos Tamoios, atacaram os portugueses novamente ao mesmo tempo que os índios do Rio ajudavam seus amigos franceses contra Estácio de Sá que ali estava para expulsa-los. Vitoriosos os Portugueses no Rio, destruíram toda aquela nação, primeiro a aldeias em torno da Baía da Guanabara, depois o massacre em Cabo Frio, com o incêndio de todas as aldeias e a matança dos índios a fio de espada. Alguns descendentes (mulheres e crianças) mais tarde teriam sido assimilados e evangelizados, outros teriam buscado refúgio na Serra do Mar onde viveram livres, miseráveis e sempre perseguidos (segundo Washington de Oliveira, seu filhinho, de Ubatuba). Os sobreviventes de Cabo Frio foram levados para perto do atual Rio de Janeiro numa aldeia de índios cristãos. Aqueles guerreiros intrépidos e hercúleos, devem ter sido reduzidos a criaturas passivas, vestidos com um lençol e carregando um missal debaixo do braço. A ferocidade, portanto, vê-se não era de nenhum índio canibal, mas do colonizador Português, que destruiu uma cultura a troco do lucro e da ganância, mesmo que para tanto fosse preciso enganar os padres acerca de sua real intenção e utilizá-los nas suas negociatas. Contudo, com todos os defeitos ou não esta colonização, no final, restou só um Brasil, com uma só língua e fé, como deveria ser, porém, os pobres índios, como crianças instrumentadas por interesses estrangeiros, sucumbiram às custas do capricho europeu, que consigo além da fé, trouxe a epidemia de varíola no Rio de Janeiro, a qual matou Cunhambebe, aniquilando também acerca de 30 mil índios por volta de 1555. Já no início do século 17, não havia mais nenhum índio Tupinambá na região Sudeste do Brasil.

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